Recentemente, dia 5 de janeiro, o serviço de streaming Netflix disponibilizou no Brasil a produção inglesa The End of the F***ing World, uma atípica série protagonizada pelos problemáticos James e Alyssa interpretados, respectivamente, pelos atores Alex Lawther e Jessica Barden. A série é dona de um humor negro e absurdista ousado e retrata, como vários filmes e séries nos últimos anos, a passagem que é a adolescência. O estilo teen não agrada a muitos, inclusive alguns adolescentes, no entanto a série se mostra como uma extrapolação de toda essa corrente e isso é seu grande trunfo.

De inicio a série aparenta ser como outras obras do gênero com toda a questão existencialista depressiva, reafirmando de maneira superficial atitudes estranhas ou extremas através de uma romantização tanto narrativa, no roteiro da série, quanto técnica, através de um perspicaz jogo de cores, sons e cortes dos diretores Jonathan Entwistle e Lucy Tcherniak.

Já no segundo episódio a desconstrução é gigantesca e pontas soltas são deixadas dentro do que pareciam personalidades ridiculamente sólidas. A série extrapola as convenções do estilo teen. Os garotos problemáticos são substituídos por um casal formado por um psicopata incubado e uma sociopata descontrolada, as rebeldias padrões são substituídas por uma verdadeira subversão de valores e crenças, os personagens a todo instante, em especial a menina, quebram regras e leis da moral e da ética. A filosofia de viver no limite é levada ao limite do absurdo e o objetivo espiritual ao invés de claro e especifico é incerto.

Aqui o cigarro entre os dentes está aceso e ele não é uma mera apologia as drogas licitas, mas a própria periculosidade das atitudes dos protagonistas. Os personagens não são donos do mesmo amor próprio de outros em outras obras, eles, de maneira consciente e inconsciente, repudiam algumas de suas ações e muitas vezes se enganam sobre quem são ou o que querem e isso os humaniza, tornando-os o verdadeiro exagero de um adolescente comum, a versão distópica e abominável dessa fase de transição.

Os diretores, ainda por cima, acertam no tom da série inserindo elementos amados pela nova onda de cinéfilos. É fácil traçar semelhanças com obras como Donnye Darko e principalmente com o estilo geral do diretor Quentin Tarantino tanto nas falas e situações absurdas, quanto em coisas mais minuciosas como o jogo de câmeras e o uso da música, este que é um dos grandes acertos da direção chegando a ter função narrativa.

Se não for muito arriscado dizer, esta é uma das primeiras obras do gênero digna de uma atenção especial e que pode figurar enquanto um clássico, justamente por não ter medo de elevar ao limite todos os valores do estilo. É impossível para um adolescente de hoje em dia e certos adultos, não se identificarem com a série.

Com seu teor de filme road trip e sua dupla tóxica e inseparável no melhor estilo Boonye e Clyde, The End of the F***ing World se demonstra o ápice de uma produção feita para os millenials, tocando em assuntos delicados de forma apaixonada, no entanto com uma afiada visão critica sobre suas atitudes, crenças, desejos, medos e sofrimentos.