Sessão Netflix | Ministério do Tempo



Uma série espanhola dos irmãos Pablo e Javier Olivares, estreada em fevereiro de 2015 e adquirida pela Netflix no ano de 2017. Com três temporadas à disposição dos telespectadores, a diversão é completa para quem gosta de história, humor e uma ficção, que não é ficção pelos dados históricos e particularidades trazidos em seus episódios.

É interessante como os fatos históricos revisitados por 3 agentes do Ministério do tempo, trazem a ideia de uma época passada com suas especialidades e nisso a série é brilhante em mostrar peculiaridades da vida dos personagens históricos retratados. Só isso já basta para que a curiosidade seja aguçada a cada episódio.

A história se passa em 2016 com um ministério secreto do tempo, criado na época da rainha Isabel, a católica. Reis e governantes e poucos agentes sabem das existência dessas portas, descobertas por um rabino, que consegue chegar a tempos futuros.   Os agentes do Ministério são recrutados para defender a qualquer custo mudanças que grupos conhecedores das Portas do Tempo infringem, para seu proveito, ideal ou ganância.

Os 3 agentes são Amélia Folk (Aura Garrido) uma das primeiras mulheres a estudar na Universidade de Barcelona no Século XIX, sendo dotada de memória fotográfica, o que a leva a ter um vasto conhecimento sobre a história e domínio da literatura, bem como do latim e se torna a cabeça das expedições ao tempo passado. Alonso de Entrerios (Nacho Frenesda), um soldado do Século XVI, exímio atirador e estrategista, e um patriota que valoriza a honra, a melhor caracterização dos valores espanhóis e Julian Martinez (Rodolfo Sancho), um paramédico do nosso tempo que perdeu a esposa em um acidente de trânsito, que sabe das progressões do tempo histórico e faz com que as mudanças sejam arrumadas.

Muitos são os personagens históricos recriados pela trama. Conhecê-los em suas formas mais peculiares é um prazer e uma honra. Só para citar alguns exemplos, a patrulha chega a interagir com as rainhas Isabel I, e Isabel II, Lazarillo de Tormes, Pablo Picasso, Tomás de Torquemada, Lope de Veja, Adolf Hitler, Napoleão Bonaparte, Cristóvão Colombo, Alfred Hitchcock, Gustavo Adolfo Bécquer, Goya, Felipe III, Felipe V, Miguel de Cervantes, Godoy, Luis Buñuel, Simón Bolívar, Harry Houdini, Rainha Isabel de Aragão, Salvador Dalí, e Velasquez (também contratado do ministério), uma figura ímpar em seus maneirismos.    

O Ministério do Tempo sofre vários ataques de grupos como os Anjos Exterminadores e rebeldes dos reinados e neles os agentes são confrontados com ideais que se conflitam ao longo dos governos em tempos passados. A série tem um humor ácido quando os personagens são colocados à prova em todas as possibilidades, de encontros e conflitos de gerações (ou de séculos, em alguns casos) que sua premissa pode proporcionar. E Alonso é o que traz essa guerra mais frequente. Ser de um tempo onde os valores de reinado são imperativos e atravessar o tempo para viver numa democracia exige uma transformação que muitas vezes segue o caminho da impotência criando várias confusões hilárias.

A premissa do tempo, na era da globalização, plástica e moldável é deixada de lado na série. E o Ministério do Tempo surge como um guardião dos bons costumes e de tudo o que já foi produzido e concebido na Espanha, trazendo à tona valores nacionalistas e tradicionais. Assim ela abre uma discussão em nosso tempo. O que realmente importa na sequência de um amanhecer de uma nação? Com certeza os moldes atuais de plasticidade e incompetências fazem a qualquer um pensar no mundo que está deixando e as transformações que sofre por se voltar para o que todo mundo consome: muita coisa pronta e acabada, empurrada goela abaixo porque as mudanças não tem como serem paradas.

A série abre alguns caminhos para as aulas de história. Será que precisariam ser chatas? Porque na série é muito divertido entrar em contato com o mundo vivido pelos ancestrais. 

Será que não podemos revisitar nossos valores e de onde eles vêm, baseando-se em fatos que criaram o poder de transformar experiências em caminhos reconhecidos pela identidade de um povo?

São inúmeros as possibilidades de se explorar os temas da série. E alicerçar um empreendimento rumo as bases de uma construção coletiva. Por isso ela já está sendo readaptada para outros países como a China e Portugal.

 

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