Sessão Netflix | Lúcifer, vale a pena?



Ao buscar as sinopses da série Lúcifer na mídia, depara-se com alguma contendas e muito pouco sobre a história do personagem heroico. Chama atenção como a profundidade do tema, em nenhum momento, é citada nos artigos.

Na história o primeiro conceito do diabo, vem de 200 anos antes de Cristo, quando surgiu os primórdios de um Deus que se deixava influenciar pelas paixões humanas e vivia sua natureza primal, surgindo como Beliel, à semelhança de Baco para os gregos, na tradição Romana.

Anteriormente, houve uma divisão do conceito de Deus, que abrigava toda a responsabilidade de tudo o que era criado na terra e no céu. 600 A.C Zaratrusta criou a ideia de que o bem e o mal não podiam vir do mesmo ser criador e se inventou, entre os babilônios, uma divisão de divindades. Até aquele momento, concebia-se um Ser Criador de todas os seres e de toda a criação. Nessa época os hebreus eram escravos na babilônia. E tiveram contato com essa cultura, criando mais tarde o Antigo Testamento com Satã, que ajudava Deus a punir os malfeitores.

Nesse momento da história há um rompimento entre forças do bem e forças do mal, que mais tarde passam a ser consideradas inimigas da humanidade ou destruidores dela. Mas, em sua origem eram consideradas como forças impiedosas da natureza, que varria as pragas e imperfeições da Terra.

Quando em IV DC, São Jerônimo empregou a ideia de Lúcifer, como “estrela da manhã”, “Aurora Brilhante”, deu início ao primeiro passo para a concepção de Satã, quando atribui a criação dele por Lúcifer um anjo caído do céu.

O pensamento humano passava por uma transformação nesse tempo. O que se concebia começava a fazer parte do raciocínio. E isso acabou fazendo com que se deixasse, para baixo do tapete, a ideia de que se podia conceber o mal. Era preciso um personagem para isso. A escolha de Satanás não podia ser melhor. Ele seria o senhor dos infernos, o punidor mais potente de todo o universo. E assim Satanás ganhou seu reino, seu mundo, suas ambições desmedidas e porta para os males da humanidade.

Saindo da trajetória de ser humano, passional e amante da liberdade humana, ele se transforma no Deus vingativo e punitivo pelo excesso da liberdade.

A igreja Universal de hoje, vê como um dos elementos inoculados dentro do psiquismo, que precisa ser combatido e expelido, criando uma cultura de exorcismo do demônio, com pagamentos de dízimos que trocam a culpa pelo salvamento.

Lúcifer, série trazida originalmente pela Fox, e reprisada pela Netflix, baseia-se nas histórias em quadrinhos de Neil Gaiman, em Sandman. Foi criada para TV por Tom kapinos. Estrelada por Tom Ellis, a série se desenvolve-se em torno do personagem Lucifer Morningstar. Ele está entediado e infeliz como Senhor do Inferno e tira férias em Los Angeles. Por isso dá início a uma casa noturna, a Lux, com a ajuda de sua aliada demoníaca chamada Mazikeen (Lesley-Ann Brandt). Ela luta como as mulheres japonesas do Jujutsu, com facas e armas pequenas.

Na ajuda à uma socialite a alcançar a fama, que é assassinada, Lúcifer se envolve com a polícia de Los Angeles e conhece a detetive Chloe Decker (Lauren German). Ela o encanta porque tem o poder de não cair sobre seus desígnios, como as outras pessoas o fazem. Começa a ajudá-la, testando seus poderes, para encontrar os responsáveis de assassinatos e “puni-los”.

Ele conta com a ajuda de uma terapeuta, Linda Martin (Rachael Harris), para compreender suas dúvidas e sua evolução como personagem humano.

Na segunda temporada ele recebe a visita de sua mãe Charlote Richard (Tricia Helfer), que o quer de volta para o céu, para ter sua família de volta. Ela encarna a personagem da Lilith expulsa do paraíso.

Ele tem mais dois irmãos. Amenadiel (David Brian Woodside) o acompanha nas suas aventuras, tentando protegê-lo e com a força. E outro, que vem dos céus para levá-lo de volta para o inferno, com o punhal de Azael, que tem parte na história de como termina a série, na temporada dois.

A terceira temporada é exibida pela Fox e ainda não chegou na Netflix.

A compreensão desse tema na profundidade dos conceitos humanos, advindos da evolução histórica, pede passagem na série.  O anjo, expulso do céu, ganha liberdade para viver com os humanos e estabelecer o seu lar na terra. Só por esse conceito, já existe uma mudança histórica. Um Deus preferindo viver na terra entre os humanos e participar de todas as incongruências que a vida traz no planeta. Cria assim, uma parte humana em sua personalidade divina, para realizar as tarefas com a detetive. Isso é completamente inédito e muito bem vindo, no sentido de que desmistifica a figura do anti-herói, subindo dos infernos para as profundezas dos abismos humanos e criando um espaço de transição entre o céu e a vivência dos seres mortais.

Embora a série seja engraçada e de muita ficção, ela utiliza de elementos simbólicos poderosos, que estão por traz de muitos aspectos da evolução do homem. E dando risada, pode-se imaginar um ser celestial entre os humanos, se tornando uma referência para os limites da paixão, do amor e as transformações que ele causa na divindade pela humanidade assumida.

Trocando de lugar com o diabo, Lúcifer enfrenta as maiores provocações do ser humano. O que o amor pode gerar? Nisso a série é genial. Responder a isso é celestial…

 

Lia Helena Giannechini

https://alemdooceano.wordpress.com/

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