Série Netflix | ‘O Mecanismo’ , deu certo?



Estreando dia 23 de março deste ano,  O Mecanismo é obra de ficção, criada por José Padilha e Elena Soares, baseando-se e adaptando de forma livre os acontecimentos políticos e investigativos da operação Lava-Jato. Além é claro, que a grande parte dos personagens descritos na trama beiram um reflexo direto dos políticos, empresários e figuras reais que transitam nas notícias da extensa investigação. De fato, essas duas características da série esbarram na ideologia política das pessoas, levando a inúmeras análises sobre o conteúdo da série. Entretanto, a obra em nenhum momento afirma ser a detentora da verdade sobre os acontecimentos ocorridos no Brasil, e deve ser analisada como o entretenimento de ficção que foi disponibilizado aos assinantes da locadora vermelha.

O enredo parte da investigação do delegado federal Marco Ruffo (Selton Melo) que busca prender o Doleiro o Roberto Ibraim (Enrique Diaz) por esquemas de corrupção envolvendo lavagem de dinheiro de empresas. Ibraim é preso mas entra em um acordo de delação premiada, o delegado Ruffo se descontrola durante o acordo e é exonerado. A história avança 10 anos e Verena Cardoni (Caroline Abras), antigo “aprendiz” do ex-delegado, está assumindo as operações.

Dentro dos destaques da série maior fica por conta do elenco que é muito bem escolhido, os atores conseguem aprofundar muito bem os seus personagens em suas atuações, além de torna-los muito carismáticos. Henrique Diaz ultrapassa com sucesso a proposta do personagem, conseguindo prender a atenção do telespectador através do seu carisma, mesmo no papel de um antagonista. Selton Melo dispensa comentários, seu personagem é complexo e quebrado e ele consegue, com maestria, entregar cada face de Ruffo em cada situação que ele enfrenta. E Caroline Abras consegue entregar uma personagem feminina fortíssima, imersa no ambiente policial que é majoritariamente masculino.

Outro ponto forte da série são as cenas que englobam a investigação policial, demonstrando a complexidade que é interpretar os mecanismos de corrupção, e como o decorrer das apreensões vai mudando os patamares do processo investigativo. Tudo isso ainda é complementado pelos conflitos internos na Polícia Federal, interesses divergentes com o Ministério Público, além da corrupção ser retratada dentro dessas instituições.

Porém a série peca ao deixar de fora várias questões que seriam muito interessantes de serem retratadas, como os interesses e ponto de vista da mídia durante a investigação, e em como isso afeta a vida da população. Em vez disso as cenas de sexo (por algum motivo existe) ocupam um tempo de tela, desnecessariamente, que poderia ser utilizada para sanar a questão anterior. Outra questão ausente é a própria corrupção da população, que foi sutilmente abordada em um episódio na reta final. Algumas das cenas que englobam os arcos pessoais dos personagens, acabam por ser repetitivas, e isso começa a comprometer o seu desenvolvimento, e novamente ocupando o um tempo de tela desnecessário.

A obra possui possuí 8 episódios de aproximadamente 42 minutos, possuindo um ritmo que pode variar para cada pessoa que assistir. Todo o conjunto é marcado pela assinatura do Diretor Padilha, com as narrações em off por partes dos protagonistas. Entretanto pareceu ser um subterfúgio, utilizado para tapar furos no roteiro.

O mecanismo é uma série que possui um roteiro repetitivo no desenvolvimento de personagens importantes, e com cenas de sexo apresentadas gratuitamente (com exceção de uma que se justifica). Porém apresenta um ótimo desenvolvimento no ambiente investigativo, que é reforçado pelo trabalho de atuação por parte do elenco muito bem escalado. Apesar de suas questões mais precárias, e das críticas envolvendo um posicionamento político e os personagens políticos serem reflexos diretos das figuras caricatas, a série está sendo bem avaliada pela maioria dos usuários da plataforma de streaming, e é uma boa pedida para quem gosta de produções nacionais.