RESENHA | O SENHOR DOS ANÉIS: AS DUAS TORRES



No segundo volume da saga de O Senhor dos Anéis, o leitor continua acompanhando a jornada de Frodo Bolseiro rumo a Mordor. No final do livro anterior, a Sociedade do Anel se dividiu: Frodo e Sam seguiram para a Terra Negra para destruir o Um Anel de Sauron, enquanto Aragorn, Legolas e Gimli partem para resgatar os outros dois Hobbits, Merry e Pippin, que foram sequestrados por orcs, depois, é claro, da morte de Boromir. Além de conhecer novas partes da Terra-média, como Rohan e a floresta de Fangorn, você também conhece outros personagens, como Barbárvore, Gollum e Faramir.

Um dos personagens mais cativantes até agora, sem dúvida, é o Faramir. É muito interessante ver, não só ele como um personagem isolado, mas também seu contraste com o irmão, Boromir. Ambos eram homens bons e honrados, mas com personalidades visivelmente distintas. Enquanto Boromir se mostrou como o típico guerreiro, imponente, destemido e mais vulnerável à influência do Anel, Faramir é mais contido, um homem de liderança, mas muito respeitoso sempre e prudente, além de ter mostrado resistência total ao Anel. Isso é uma das coisas que difere do filme, onde ele chega a levar Frodo prisioneiro para usar o Anel para defender Gondor, mas acaba libertando o hobbit no caminho. Contudo, tanto no livro quanto no filme, você simpatiza bastante com o personagem.

No geral, as personalidades dos personagens continuam muito bem trabalhadas, como a de Gollum que é fascinante; sua dupla personalidade, causada pelo tempo de exposição ao Anel, foi muito bem retratada. Ele parece estar sempre em conflito com ele mesmo, querendo fazer o mal e não querendo ao mesmo tempo. É incrível, para quantidade de personagens nessa história, ver como todos eles parecem ter realmente uma vida própria, o que se vê bastante nos diálogos, que é um dos pontos mais fortes de ambos os livros. O modo como os personagens vão desenvolvendo os assuntos é muito orgânico e tem uma certa profundidade, mesmo tendo em vista que o modo de falar representado na história se baseie em um modo antigo de se falar. Os personagens têm singularidades nas suas próprias histórias, têm experiências e você vê toda a vivência deles representada ali.

 

E com a história da própria Terra-média, acontece o mesmo. Tudo é muito detalhado e muito singular, os acontecimentos, as tradições, as culturas. É um mundo tão rico que fica cada vez mais realista. E uma coisa que é importante falar sobre escrever uma obra de fantasia, é que para que a história que você quer contar seja envolvente e interessante, você tem que definir as regras do seu mundo e deixar elas claras para o leitor. Não é porque é fantasia que tudo pode acontecer de qualquer jeito. Se o leitor não entende as regras desse universo, a imersão dele na trama fica comprometida, pois são muitas as chances de deixar a trama contraditória e confusa. E no caso da Terra-média você a entende muito bem e cada vez mais, o que deixa ela mais fascinante ainda. Até porque, além da descrição histórica muito detalhada, você tem também uma descrição de cenário muito detalhada; a paisagem, o relevo, o clima, etc.

A narrativa aqui é dividida em duas partes: na primeira parte, você acompanha o resgate de Merry e Pippin do ponto de vista deles e também de Aragorn e companhia, assim como a batalha do Abismo de Helm, etc. Na segunda parte, você lê apenas o ponto de vista de Frodo e Sam até o final. Essa divisão se mostrou interessante por dois motivos: por ter tornado a narrativa mais rápida (ainda é, como o livro anterior, um pouco demorado de se ler, para algumas pessoas, mas é mais dinâmico que o primeiro), e por ter dado o foco devido à relação de amizade e de confiança de Frodo e Sam diante de todas as situações que eles acabam passando, com destaque para o capítulo onde eles passam pela toca da Laracna. Próximo ao final do livro, também se percebe que Frodo começa a sentir realmente o fardo de Portador do Anel, os efeitos físicos e psicológicos que a viagem foi causando nele.

Como já foi dito, o ritmo da narrativa começa um pouco lento, mas logo ele engrena e fica bem mais dinâmico. Essa edição da Martins Fontes é muito boa, embora as páginas brancas possam incomodar um pouco, mas no geral é muito bonita, as capas da trilogia são lindas e a revisão é ótima, embora ainda tenha alguns pequenos erros que sempre acabam passando, como falta de pontuação e de alguns conectivos, mas nada de grave.

Cada vez mais a saga supera as expectativas e mostra o porquê de ser um clássico. Lembrando que O Senhor dos Anéis não é uma saga de ação, é uma saga de fantasia e aventura. Muitos começam a ler com a expectativa errada, pensando que o foco são batalhas e lutas, e acabam se decepcionando. Quando você abre algum livro dessa saga, você tem que ter em mente que está acompanhando uma viagem. E viagens são imprevisíveis.