Criar uma nova franquia de fantasia no mercado editorial atual é um risco considerável. Tanto as comparações com clássicos como o Senhor dos Anéis, quanto a concorrência com novos monstros literários como A Guerra dos Tronos, podem funcionar como poderosos desmotivadores. Porém, quando um autor une talento, disciplina e criatividade, esses fatores parecem não fazer muita diferença. A boa notícia é que Patrick Rothfuss possui todas essa qualidades e sabe como usa-las. Sua trilogia, A Crônica do Matador do Rei, embora ainda incompleta já se firma como uma das melhores surpresas dos últimos anos no mercado de literatura fantástica.

Composta pelos já lançados O Nome do Vento e O Temor do Sábio e pelo ainda inédito The Doors of Stone, a obra é uma declaração de amor à arte de contar histórias. A premissa básica do livro é bem simples e em alguns pontos lembra a estrutura apresentada no clássico de Anne Rice, Entrevista com o Vampiro. O personagem principal da história, Kvothe, ou Kote como prefere ser chamado agora que assume o papel de um pacato estalajadeiro, aceita depois de certa relutância contar, durante três dias, a sua história a um Cronista. Fica clara aqui a ideia, boa diga-se de passagem, de cada dia representar um dos livros da trilogia.

Talvez a maior qualidade de Rothfuss, e a que talvez não seja apreciada por todos, é a total ausência de pressa e total comprometimento do autor em contar sua história. Tudo corre de modo lento e compassado e o que é impressionante, em momento algum o livro fica maçante ou tedioso. Cada acontecimento parece ter peso, gravidade e importância. Isso é realmente algo muito difícil de se ver na obra de um iniciante, já que O Nome do Vento é a obra de estréia de Rothfuss. Ouvi algumas pessoas reclamando que “demora pra acontecer algo”. Discordo! Sempre está acontecendo algo, mas nem sempre esse “algo” necessariamente precisa ser um dragão cuspindo fogo ou uma batalha épica! E o grande atrativo é que Rothfuss consegue prender nossa atenção seja nos momentos graves, densos e dramáticos, seja numa inocente conversa entre Kvothe ainda criança e sua mãe a respeito do significado das canções infantis.

Outra preocupação do autor é fazer Kvothe, que é apresentado como uma lenda, como um ser quase mítico dentro desse universo, mostrar sentimentos. É dada ao personagem uma fragilidade inesperada, espontânea e natural, o que torna o torna mais humano e o aproxima do leitor. Me segurei num certo momento, logo após Kvothe fazer a primeira pausa em seu relato ao Cronista, para não derramar algumas lágrimas! Em alguns pontos da leitura, me peguei comparando o universo de Rothfuss a outro igualmente admirável criado pelo Polonês Andrzej Sapkowski na sua série The Witcher, e embora essa sensação de familiaridade se apresentasse de modo muito leve, foi bastante satisfatória por perceber que é possível ser criativo e original, mesmo percebendo as possíveis influências de outras obras.

Uma tática inteligente do autor para compensar o ritmo da história é nos dar capítulos curtos, alguns com uma ou duas páginas apenas. Esse artifício dá ao leitor a sensação de continuidade, de progresso no enredo. Como um extra para os mais atenciosos, destaque para a arte da capa do artista Marc Simonetti, bela e poética.

Bem escrito, sensível, divertido e empolgante, A Crônica do Matador do Rei é uma obra que deve ser lida, sem pressa, por todo aquele que gosta de uma boa história contada por um autor que se importa com ela, com seus personagens e com seus leitores.