Ouros do Cinema Nacional - Cidade de Deus



Filmes são amplamente consumidos, lotando salas de cinema e gerando rodas de discussão, entretanto muitas dessas produções são estrangeiras e “roubando” o espaço das obras brasileiras. Um dos ouros do cinema brasileiro é a icônica obra, dirigida por Fernando Meireles com a Co-Diretora Kátia Lund, Cidade de Deus (2002).

O filme, inspirados em acontecimentos reais e baseado no livro de Paulo Lins, tem início nos anos 60 e conta a história de Buscapé (Alexandre Rodrigues), um jovem que cresceu na Cidade de Deus no Rio de Janeiro, que possui o sonho de ser repórter fotográfico. Toda a narrativa é conduzida pelo ponto de vista do jovem, entretanto, ele não é ferrenhamente o protagonista, já que a história transita entre outros personagens como, Bené (Phellipe Haagensen) e Dadinho/Zé Pequeno (Leandro Firmino) os jovens delinquentes que crescem e alcançam o patamar de bandidos mais perigosos do Rio de Janeiro, Mané Galinha (Seu Jorge) um trabalhador honesto que acaba virando bandido além é claro, da Própria Cidade de Deus que evolui ao longo do filme tornando-se um personagem tão importante quanto os anteriores.

O filme possui uma poética forte, demonstrando uma parcela da sociedade que é ignorada ferrenhamente pelo governo na época (Entendendo que essas questões ainda podem ser observadas atualmente), influenciando o nascimento de figuras criminosas na Cidade de Deus. À medida que a poética apresenta os agravantes para a insurgência da criminalidade e em como isso futuramente pode corromper outras pessoas agravando a situação, ela também elucida questão da escolha final em seguir ou fugir desse caminho, que cai visivelmente nas mãos dos personagens principais.

O roteiro é adaptado de forma brilhante Bráulio Mantovani que constrói uma narrativa muito similar à de uma história publicada em jornal, característica muito bem relacionada com o desejo de Buscapé em tornar-se um repórter fotográfico. A fotografia do filme altera entre as duas décadas que o filme transita, tanto na questão das cores como no posicionamento da câmera. A montagem do filme é dinâmica, com um ritmo frenético gerando algumas vezes certa confusão em quem assiste, podendo ser uma característica a da confusão na própria estrutura da periferia. A trilha sonora é característica da época oscilando em produções nacionais (Escolhidas a dedo) e em músicas internacionais, que compõem muito bem cada uma das cenas em que elas estão presentes.

O maior destaque fica nas mãos dos personagens, toda a parte de atuação dos protagonistas é fantástica e a dos coadjuvantes mantém o mesmo nível mesmo sendo a maioria inexperiente, os diálogos, as expressões e os olhares soam muito naturais do início ao fim do filme, com um nível de carisma absurdo capaz de prender o telespectador até mesmo com as figuras mais antagonistas.

Cidade de Deus é um dos filmes mais importantes e influentes das produções brasileiras, a obra marcou presença nos festivais que ocorreram no ano de seu lançamento, e atualmente serviu de inspiração para o diretor de Pantera Negra. Sem sombra de dúvidas é uma obra impecável, que traz à tona algumas questões pertinentes no contexto brasileiro, e ainda assim consegue atingir facilmente o público brasileiro da mesma forma que os filmes de ação norte-americanos fazem.