ORSON WELLES, CIDADÃO KANE E LEGADO



Estava eu numa leva de assistir aos grandes clássicos do cinema, e no meio dos que vi recentemente, “Cidadão Kane” ganhou a maior parte de minha atenção. Já é do conhecimento da grande maioria dos cinéfilos o peso que este filme tem para a história do cinema. Entretanto, fiquei bastante surpreso com o fato de que como uma produção de 1941 consegue ser tão precisa e corajosa para mostrar ao mundo como funcionam as engrenagens da nossa mídia, e o quão poderoso é quem ‘vende’ informação, e não quem a detém.

Essa grande obra foi criada pela insaciável mente de George Orson Welles(1915-1985), um cineasta americano, filho de um inventor e de uma pianista, Welles, e sempre foi versátil em várias artes: mágica, pintura, piano: Desde os seus 18 anos de idade já fazia sucesso como ator na Broadway.

No ano de 1938, as pessoas passavam por uma época de conflitos internacionais que resultaram na Segunda guerra mundial, juntamente com uma péssima economia nos Estados Unidos, o povo estava em desespero.

Neste ano, Orson trabalhava como radialista,para a CBS (que batia a segunda maior audiência entre as rádios). Pois bem, o programa dele contava com áudio-dramas, e no dia 30 de outubro, a produção resolveu realizar uma dramatização, baseada na obra “Guerra dos mundos”, na qual, marcianos atacam a terra. Welles descreveu tal ‘suposto ataque’ com tanta intensidade, que as pessoas rapidamente entraram em estado de choque, achando que aquilo era realmente um caso verídico, e não uma atuação. A rádio era o maior meio de comunicação da época, e essa transmissão chegou até os ouvidos de milhões de americanos. Muitas pessoas fugiram para as montanhas, com medo do ataque alienígena que acabavam de ouvir pela rádio, infelizmente, algumas pessoas, alarmadas com tal notícia, chegaram até a cometer suicídio.

Depois deste caso, Orson Welles, teve que passar por inúmeras entrevistas, explicando para o povo sobre o ocorrido. Sua notoriedade alavancou-se a nível nacional, e logo ele recebeu um convite de Hollywood, para se mudar para lá. Ele aceitou, e acabou assinando um contrato de 3 filmes com a produtora RKO. Como poucas vezes na história, a produtora ofereceu tudo que um jovem diretor poderia pedir; um bom orçamento para produção, a seleção dos melhores profissionais da área e uma ‘carta branca’, conferindo a ele, total liberdade para trabalhar como bem entendesse.

O jovem Welles, de 26 anos, veio então com a verdadeira obra cinematográfica, “Cidadão Kane” e como poucas vezes ele fez o que poucos realizaram até hoje?. Orson Welles realmente tomou as rédeas por completo desse projeto, tendo créditos como: Diretor, produtor, roteirista e estrelando o personagem principal do filme – Charles Foster Kane.

No filme, vemos como ele usou a história de um famoso magnata americano, William Hearst, um verdadeiro chefão das comunicações, que era dono de um grande noticiário que distribuía jornais nos EUA. O filme aborda, baseado na história desse homem, o tamanho do seu poder de persuasão, e melhor ainda, como ele manipulava o pensamento das pessoas com isto, fazendo com que a população o amasse, a ponto dele “mexer os pauzinhos” como bem entendesse para suas vontades pessoais se concretizarem.

Cidadão Kane foi um fracasso de bilheteria e rendeu 1 só Oscar para o prêmio de melhor roteiro. Ou seja, uma bilheteria fraca e pela qualidade não só narrativa, porém técnica do filme, um dos maiores filmes da história passou batido pela academia. Muitos dizem que a influência negativa, até mesmo antes do lançamento do filme ter  tido influência do próprio Hearst, sendo que as críticas da época acabaram com o longa, e isso fez com que este filme passasse despercebido por décadas, até ser ovacionado a partir dos anos 60 em frente.

Não sabemos se William Hearst, o cidadão Kane da vida real, realmente boicotou o filme, porém sabemos que, depois desse filme, Orson, jamais conseguiu fazer um filme em que ele estivesse totalmente sob controle. É claro, ele tem bons filmes depois de 1941, como A marca da maldade(1958) – considerado um dos melhores filmes Noir já produzidos, e  O processo(1962) – que foi estrelado por Anthony Perkins, ator que estava em alta por fazer o papel de Norman Bates em Psicose (1960).

O problema é que, após Cidadão Kane, Welles foi praticamente excomungado de Hollywood, o que aconteceu foi, as grandes produtoras não ficaram nada satisfeitas com o que o filme dele revelou para o público, e investiram suas forças em diretores com quem fosse possível manipular o andamento das produções. Desde então ele passou sua vida inteira atuando, fazendo pontas em filmes que não tinha o menor interesse e trabalhando como dublador. Tudo isso com o intuito de juntar orçamento para suas obras. Sem o apoio de uma grande produtora, Orson Welles sofreu sua vida cinematográfica inteira juntando dinheiro para produzir seus filmes.

Assistindo a entrevistas, é fácil identificar o amor dele pelo cinema, e ver tudo o que ele passou é muito triste para todos nós amantes da sétima arte. Em uma de suas entrevistas Orson nos deixa com a seguinte frase:

“Eu acho que tornei em essencial o erro de ficar nos filmes, porque eu – mas é um erro do qual eu não posso me arrepender, porque é como dizer, “eu não deveria ter continuado casado com aquela mulher, mas eu o fiz porque a amava”.