Cultura | Neuromancer, rap e pós-humanismo



Ah! O mundo pós-moderno! Uma criatura mutável, liquida, inexistente e repleta. Uma multiplicidade de fatores e pessoas, sorrisos compridos em cartazes e em telas de celulares nas mãos de multidões dentro de trens rumo a capitais culturais.

Estamos num novo século, isso é um fato, mas outro, menos óbvio, é a existência de uma nova era, um tempo onde, novamente, a criatividade humana renovou seu cotidiano. Novos campos para exposição e divulgação da cultura e de debates foram abertos, mudou-se os canais de comunicação, os governos, os protestos contra eles, os automóveis, em suma, toda dinâmica das metrópoles.

O que não se percebe tão facilmente quanto essas mudanças físicas são as mudanças do homem. Nossas relações, nossas aspirações, o imaginário popular, as prioridades do cidadão mediano, as dificuldades impostas a ele, tanto as de fora, colocadas por outras pessoas, quanto aquelas que colocamos em nossos próprios caminhos.

A arte sempre retratou o zeitgeist (junção de todas as características de uma época) de seu tempo. Seja a literatura, seja a música ou as artes plásticas. As produções artísticas desmembram, seja para o bem ou para o mal, a figura humana, geralmente tendo uma visão pessoal, marcada por uma busca por auto-conhecimento.

Nos nossos tempos tem quem diga que a arte entrou em decadência, está ficando burra, porém me recuso a acreditar. Acho que tornou-se turva, escondida, talvez um taboo, pois a boa arte sempre foi chocante e, acima de tudo, realista.

Por mais fantástica que seja a história ou a ideia sempre existirá um realismo no sentimento de seus personagens ou na essência do que defender, e quando não há, essa falta é movida por um desejo de a realidade ser outra. Uma utopia implícita que os autores colocaram por acidente criativo como uma pontuação errada, proposital, pois eles simplesmente não acharam forma melhor de mostrar o tom de uma certa frase, ou o ritmo da respiração de um personagem.

A arte é uma representação do presente e, no nosso presente, podemos ver a recente ascensão da ficção cientifica distópica como um reflexo de nossos tempos loucos. Para mim, poucas obras ilustrariam melhor essa ideia que o livro cyberpunk de William Gibson Neuromancer.  (imagem)

A obra carrega tanto a ideia de pós-humanidade quanto a ideia de pós-humanismo.

“Night City era como uma experiência malsucedida de darwinismo social, projetada por um pesquisador entediado que não tira o botão do fast-forward.”

Considero a frase uma síntese, não apenas dos anos oitenta nos EUA, como do futuro que a precedeu. A fala dialoga com o conceito de modernidade liquida criado pelo filósofo Bauman para descrever o mundo pós-moderno… conceitos que escorrem, se transformam, evaporam e condensam em novas formas esquecíveis e pessoais.

Toda a trilogia, trazida para o Brasil pela editora Aleph, é lotada de frases tão boas quanto essa, mas a real genialidade do texto não está na narração, mas no subconsciente das personagens e o como elas se encaixam dentro de suas realidades.

Num mundo onde apliques tecnológicos são comuns e distorcem a figura humana e a internet é algo onde, literalmente, se pode navegar, a aura das personagens parece seguir o mesmo movimento. A vida do protagonista gira em torno de seu trabalho enquanto cowboy cibernético e a perca desse emprego, a impossibilidade de retornar para o oficio que dava-o sustento, sentido e alienação, se torna uma avaria, um erro em seu programa padrão.

A trilogia é dotada de uma melancolia própria do gênero, uma consciência do efêmero abatendo todos os personagens, estes que tentam fugir para longe dessa consciência. Tudo ocorre sob a luz de cores fortes e neons, de uma multiplicidade cataclísmica, da constante influência das grandes marcas sobre o cotidiano, dos produtos irrelevantes e das drogas psicodélicas.

Salto dessa série de afirmações sobre uma obra americana para outra série, não de uma obra, mas de um estilo. O rap é um dos filhos do pós-modernismo, sempre dialogando com debates sobre humanidade, relacionando-o ao comportamento dos homens e mulheres de seu tempo, fazendo referências a tecnologia e a cultura e o avanço das mesmas, mas tudo na visão de uma classe baixa supostamente mal educada, sem futuro, destinada ao trabalho braçal ou que teria de se esforçar muito para ter sucesso na vida para passar numa federal em medicina e aparecer na TV, em suma, uma classe protagonista de uma distopia.

Há sim um estigma com essa classe produzindo cultura, ainda mais quando essa cultura de repente se torna o Brasil e vice-versa. O funk é o maior exemplo disso, o preconceito que sofre é enorme e a hipocrisia que segue as criticas sofridas é maior ainda. Pessoas que fazem vista grossa para o machismo e a violência no dia-a-dia tornam-se paladinos da moral. Eles rodam seus dados torcendo por um vinte e nunca erram, supostamente.

Só que quando aparece o rap… bom, eles erram.

“ Sutras, medito sobre sustentar colunas;

Se me esqueço a estrutura esmago o Atlas;

Doces curvas e o veneno que a alma procura

que dão pra mim ao mesmo tempo em que cravam facas.

Conhaque para esquecer e ser só criatura,

e no outro dia não pensar na dor da criação.

Quando nem sempre tudo que é contido vale sua moldura,

perdendo tempo e paciência junto da razão”

 

Esse é apenas um trecho mínimo da música Anti-Herói do rapper Peagá, uma música a qual uma simples citação não resume a qualidade.

A poesia aqui não é na estética padrão, calma, serena e progressiva, igual a dos tempos passados, onde se sentava em sua casa no silêncio, mergulhado em solidão, tanto para ler quanto para escrever. Pelo contrário, é uma poesia cuja a emoção condiz com o atual. Com a velocidade do trem indo para o trabalho, com seu coração acelerado por causa da possível promoção, a briga de ontem ainda ecoando em seus ouvidos, a pressão de conhecer novas pessoas e viver a vida para, assim, poder viver mais, um fantasma sobre seus ombros. O celular em seu bolso vibrando, prometendo-lhe que hoje haverá algo de relevante para saber.

Toda a estética do rap circunda essa representação realista da pós-modernidade, de seu dinamicismo torturante, de sua solidão urbana, de seus problemas velados. Aqui o descontentamento é explicito, pois somos a era onde é permitido o explicito, mas que, quando se trata de coisas sérias e profundas preferimos esquecer.

Há muito é debatido se o rap é cultura e o simples fato desse texto existir comprova sua evolução e seu alcance, e arte é isso, uma comunicação, não avaliada por quantidade, mas pela capacidade de tocar figuras não importando classe, raça ou idade. Arte é diálogo, e arte é cultura.

É nesse diálogo que o rap revela seu lado mais pós-humanista. Não bastasse toda sua essência rítmica e poética ser uma reação natural a um cotidiano acelerado e complexado pelas instituições, o governo e seus métodos, de uns anos para cá, a sonoridade tem se tornado explicita quanto a essa presença da tecnologia e sua interferência.

O conceito de pós-humanismo gira em torno de tecnologia como deve ter percebido. Carrega perguntas como, o que ocorreria se uma classe social tivesse como “upar” suas capacidades com apliques tecnológicos? O como as redes sociais afetam nossas mentes na vida real? Uma inteligência artificial seria capaz de amar? Ela seria melhor que o homem se o fizesse? Filmes como Blade Runner e autores como Arthur C. Clarke, Phillip K. Dick, Isaac Azimov e inúmeros outros abordam o tema a sua maneira, sendo este título, pós-humanismo, ainda recente e em formação.

Alguns rappers vêm colocando isso em suas músicas através do uso de batidas lofi-hip hop e o aplique pontual de sons eletrônicos cotidianos. Poucos fizeram isso melhor que niLL. Além das letras que denunciam essa imponência da tecnologia, letras de músicas como “Jovens Telas Trincadas”, há a presença de elementos externos, por exemplo, “Meliodas” e “Tchau Regina!” contam com áudios de Whatsapp embutidos, um som pontual de microondas e o som de abertura do Xbox 360.

“Tchau Regina!” tem a melhor síntese dessa modificação do espírito humano. Ela se inicia apenas com a batida. Após alguns segundos, é ouvido o som do botão do gravador de áudio do Whatsapp acompanhado do vocal num refrão quase eterno  rompido apenas por áudios. O refrão é bom, porém continuo e aos poucos nos habituamos, mas, quando aquelas palavras estão prestes a perder o sentido a voz falha, um bug a quebra em estilhaços. Ela trava, reage, e prossegue feito nada tivesse acontecido.

De repente aquilo se torna uma pérola e aquelas palavras nos marcam não como ferro, mas como uma imagem brilhante de mais no filtro azul do celular no escuro.

“Não disse adeus e se te vejo mais tarde?… O tempo passa e o que fica é saudade… Ficou faltando um abraço se sabe…”

A música fecha o álbum e termina surpreendentemente emocional, com áudios pessoais de mais. Ao ouvi-los floresce uma sensação de invasão e nos damos conta que não somos outra coisa se não stalkers de um perfil alheio, de uma história alheia. Pessoas conhecendo uma outra, desbravando-a através de exposições momentâneas e reprodutíveis através de uma arte essencialmente contemporânea. A mesma sensação de um cowboy cibernético ao entrar em sistemas ilegais, a mesma comoção, a mesma impotência diante da informação, o mesmo amor ao efêmero.