E estamos em 1978, finalzinho da década de 70. A Casa das Idéias aparecia nas bancas sob o selo da Bloch Editores, forte por conta da finada revista Manchete. Além dos títulos triviais, como Homem-AranhaHulkCapitão AméricaVingadores, etc., também estavam à disposição do pessoal boa parte da linha de terror da Marvel Comics.

O quê? Você não sabia que a Marvel teve uma linha de terror? Pois é, houve um tempo em que a Marvel investia em outras coisas além dos “diferentes perseguidos por uma sociedade que os odeia”. Havia a linha trivial de super-heróis, a linha “fantasia” com ConanSonjaKull, e outros criados por Robert Howard, a linha de humor, cujo grande representante foi Howard, o Pato, e a linha de terror, com Dracula (já citado no capítulo passado), Lobisomem (no original, Werewolf by Night), Frankenstein, a Múmia (The Living Mummy), entre outras criaturas da noite.

E isso veio pra cá! A Bloch, bastante oportunista, lançou o selo “Capitão Mistério”, pelo qual os leitores brasileiros acabaram conhecendo personagens como Irmão VoduSatanaLilithMorbius, além dos já citados no parágrafo anterior. Mas não durou muito.

 

Se você prestou atenção, deve ter sentido falta de um monte de personagem na RGE, né? Pois então, caras como ThorCapitão AméricaHomem de FerroPunho de Ferro (e não de “aço” como queria a Bloch), Surfista PrateadoMestre do Kung-Fu só apareceriam novamente nas bancas meses depois, e pela paulistana Editora Abril, que expandia a sua linha de quadrinhos infanto-juvenis, já composta por Disney, Maurício de Souza e Hanna-Barbera.Em janeiro de 1979, a Bloch encerrava o título do Homem-Aranha em sua edição de número 33. Todavia, já no mês seguinte, a Rio Gráfica Editora – propriedade da família Marinho (os donos da Rede Globo, rapaz alienado!) – assumia a incumbência de publicar as crias de Stan Lee por aqui. Hulk e Homem-Aranha, pra variar, foram os primeiros a ganhar sua revistinha própria. Logo em seguida veio a revista “Os Quatro Fantásticos” e as séries bimestrais Almanaque Marvel e Super-Heróis Marvel, em abril e junho, respectivamente. A primeira trazia as aventuras de Nova (que faziam bastante sucesso entre os leitores brasileiros, mais ainda do que entre os americanos), Mulher-Aranha e X-Men. A segunda trazia histórias das revistas Marvel Team-Up (o Homem-Aranha e um convidado especial) e Marvel-Two-in-One (o Coisa e um convidado especial). Naqueles tempos, almanaques eram a última moda, e tanto o Aranha como o Hulk tinham os seus. A editora se aventurou também com um álbum de figurinhas de seus personagens.

 

Parecia uma competição desleal. Afinal, a RGE tinha os “hits” do momento, Homem-Aranha, Hulk e os Quatro Fantásticos, protagonistas de desenhos animados, seriados de TV e até de um filme longa metragem (no final de 1979, “A Vingança do Homem-Aranha” estreou nas telonas do Brasil para aproveitar o sucesso da série de TV, trazendo – pasmem! – o episódio-piloto da mesma série). Porém, a Abril esmerava-se na qualidade de sua linha, principalmente no aspecto editorial. A tradução, a colorização, a diagramação, o papel, tudo era melhor. Sem falar na baderna que a RGE fazia na já problemática cronologia. Para vocês terem uma idéia, no mesmo mês, você lia histórias do Aranha namorando com Gwen Stacy (na revista Homem-Aranha) e com Mary Jane, anos depois da morte de Gwen (na revista Super-Heróis Marvel). Sem falar nas diversas “splash pages” que nada mais eram que quadrinhos ampliados no tamanho de uma página inteira. Bizarro! Sem contar nas seções de carta, respondidas pelos próprios personagens: “Hulk fica feliz que amiguinho compra sua revista”.Capitão América #1 e Terror de Drácula #1, em junho de 1979, inauguraram a nova linha, seguida por Heróis da TV, em julho. Super-Heróis eram a moda entre as crianças da época. A Gulliver trouxe uma coleção de bonecos e imagens dos seus personagens preferidos podiam ser encontradas até no seu chicle-de-bola Ping-Pong.

Por volta do mês de maio de 1983, começaram a aparecer chamadas nas capas das revistas do Capitão América, como “vem aí a revista do Aranha” e “vem aí a revista do Hulk”. No editorial da seção de cartas de Heróis da TV # 48, de junho, veio o anúncio que muitos esperavam: Toda a linha Marvel Comics seria publicada pela Abril. Já no mês seguinte, chegaram às bancas, novamente, Homem-Aranha e O Incrível Hulk, com 84 páginas por edição, lombada quadrada (como “Capitão”, “Heróis” e “Superaventuras”) e um álbum de figurinhas de brinde. Foi sensacional! Em setembro, saiu a primeira edição de Grandes Heróis Marvel, uma revista trimestral cuja proposta era trazer sempre grandes eventos. A estréia trouxe a conclusão da Saga de Adam Warlock e Thanos, com participação dos Vingadores. Um clássico incontestável da Marvel. Sem falar na bela iniciativa do hoje venerado “Dicionário Marvel”, que vinha em cada uma das edições mensais. Aliás, naquela época, gibi tinha data certa pra chegar na banca: Heróis da TV abria o mês, dia 2; dia 9 chegava Superaventuras Marvel, dia 14 Homem-Aranha, no dia 20 era a vez do Capitão América e dia 26 o Hulk fechava a conta.E assim a coisa caminhou até 1982, quando a Abril lançou Superaventuras Marvel, abrigando DemolidorDoutor EstranhoPantera Negra Conan, o Bárbaro. Na RGE, o tradicional Almanaque Marvel deu lugar ao Almanaque Premiere Marvel, que trazia histórias do Cavaleiro de Prata(?), ROMHércules e histórias da série “E se?”. Em dezembro daquele ano, saíram as últimas edições de Hulk e Homem-Aranha, além do Almanaque do Hulk, já dominado pelo sucesso dos X-Men em suas três últimas edições.

Os anos que seguiram foram pródigos ao apresentar novas séries aos leitores. E a Abril tirou a sorte grande ao pegar uma das melhores fases da história da editora: no mesmo mês você tinha X-Men de Claremont e Byrne, Demolidor do Frank Miller, Vingadores de Roy Thomas e Neal Adams, Capitão América também pelo Byrne, Hulk por Bill Mantlo e Sal Buscema, além do sucesso, galgado no filme, de Conan, que ganhou sua “Espada Selvagem” em junho de 1984, revista que se tornou a mais vendida por muitos anos (cerca de 100.000 exemplares por edição!).

 

Mas não apenas de êxitos viveu a editora da arvorezinha. A tentativa de lançar o material adulto e pouco convencional da Epic Comics, em agosto de 1985, falhou e a revista foi cancelada com apenas 6 edições. Já no final de 1986, os colecionadores viram a tal lombada quadrada sumir, e, pior, a diminuição do número de páginas de algumas revistas, como Capitão América, que das tradicionais 84 (desde a edição 29, quando se tornou “Almanaque”) para 68. Tempos de recessão pós-Cruzado.

Falando em 1986, não podemos esquecer que esse foi o ano em que a Abril fez uma de suas maiores prezepadas editoriais: Guerras Secretas. Além de ter sido a primeira mini-série da editora, a história que o leitor de 1986 leu não é a mesma que foi criada e publicada no EUA em 1984. Por motivos contratuais (a linha de brinquedos da série já estava sendo anunciada), a série teve que ser publicada antes do momento cronológico correto, o que levou os editores a fazer uma série de adaptações. Personagens foram apagados da história, plots descartados, numa verdadeira colcha de retalhos, mas que não diminuiu a diversão. Às vezes, a ignorância é uma benção!

Em 1987, foi a vez de lançar mais duas revistas, parte da linha Novo Universo Marvel: Justice e Força Psi. Mas como é raro alguma coisa dar certo aqui e não lá (exceção feita ao já citado Nova) as duas foram canceladas na 12ª edição, deixando um monte de perguntas sem resposta. Para compensar, tivemos cada vez mais mini-séries a partir de então, como WolverineHomem de FerroThorElektra, e ainda o advento dos álbuns de luxo, as graphic novels, coisa impensável para aqueles que viram revistinhas sendo distribuídas em postos de gasolina. X-Men, Demolidor, Capitão Marvel e Homem-Aranha foram os pioneiros neste formatão aqui no Brasil.

 

A seguir: MUTANTES! MUTANTES EVERYWHERE!