Livro | Retrocências - Fisionomia Camponesa



Não me lembro exatamente quando nos vimos pela última vez. Talvez no meu aniversário, ano passado, apesar da rapidez e poucas palavras trocadas. Ela havia ido não por minha causa, exclusivamente, mas por ser uma daquelas festas ou encontros de família em que parentes que não se vem há muito tempo, resolvem se encontrar por uma questão prática. Ainda permanece em minha lembrança sua roupa e também sua expressão de apatia. Sorria por sorrir, tentando ser agradável sem fazer questão alguma de externar algum maior sentimento. Era quase uma estranha entre os demais. Seu jeito doce era o que não despertava nas pessoas, ali presentes, suas reais intenções. A pele alva e bem tratada contextualizava o traje. Um vestido branco de rendas rosas e azuis na borda davam a ela uma fisionomia camponesa até, nem por menos elegante.

Ela sempre soube encantar a todos com tamanha graciosidade e sedução. Durante toda a juventude foi assim. Ali ainda não manifestava em sua essência, sentimentos futuros. Tanta distância física, como a principal de todas elas, a emocional. Em muitos momentos daquela festa me vi pensando num passado em que vivemos situações interessantes, encontros e desencontros, brincadeiras costumeiras de toda e normal criança. Como pode o tempo transformar tudo isso e quase apagar da memória de alguns certos fatos e lembranças? Eu não tenho, infelizmente, essa resposta. Aliás, se a tivesse não faria tanta pergunta. Enfim, esquecer momentos felizes seria para mim o mesmo que tentar apagar a minha própria história. E isso… Definitivamente não pretendo fazer. Valorizo cada dia, cada pessoa, lugar, todas as experiências felizes ou não. Tudo está em mim. Todos estão em mim. Talvez para ela, nada do que tenhamos vivido tenha alguma importância. Quem poderá, ao certo, afirmar?

Lembrei-me de quando fomos passar férias no sítio de Tia Miranda. Que mulher fantástica! Tão animada! Sempre nos recebia com imenso carinho e hospitalidade. Quando íamos, ficávamos as férias inteiras e nem percebíamos o tempo passar, as aulas se aproximarem e chegar o fatídico dia em que voltávamos à nossa indesejada realidade. Eram inesquecíveis aqueles dias que passávamos lá. Diariamente dormíamos exaustos de tanta atividade praticada. Era uma festa, isso sim. Aquilo era vida saudável, o resto é porcaria.

Levantávamos todos os dias às sete. Tomávamos banho frio, nos aprontávamos e íamos para a cozinha tomar nosso café da manhã. Lembro com detalhes daquela enorme cozinha. Uma mesa retangular de madeira, comprida, com vinte lugares, ocupava todo o espaço. Eu, apesar de compartilhar daquela momentânea realidade com meus primos, não abria mão de meus minuciosos hábitos e detalhadas manias. Antes de iniciar meu café, tomava um copo de água em jejum como quem preparasse o organismo e talvez o espírito para receber de fato seu primeiro alimento. Uma xícara de café com leite, um pão francês – que em lugares como esse parecem de fato ser mais franceses – com manteiga e uma fina fatia de queijo e outra de presunto, seguidos de fatias de bolo. Digo fatias, pois sempre foi minha grande perversão. Adoro bolo de todo jeito, inclusive os solados. E como isso não faltava à farta mesa de Titia Miranda, eu só me levantava após experimentar cada sabor. Geralmente eram três que a própria e sua fiel cozinheira Doralice preparavam: chocolate, fubá e milho. Esse era o meu predileto. Sabe que até hoje, ainda paro em certas delicatesses, para tomar café com bolo de milho? Pois é.

Essa coisa de pôr a mesa pra fazer refeições, de respeitar os seus horários, foi hábito adquirido pelas férias no sítio de titia. Lá em casa, não era assim. Mamãe nunca fez questão. Consequentemente, nossos hábitos eram muito diferentes. Valorizo muito isso. Sou exigente, não abro mão. Mesmo não me considerando constantemente assim, em determinados momentos sou um exímio conservador. E pensar que ela me achava um atrevido sem causa… Um bravo menino cujo principal traço de personalidade era estar a anos-luz à frente de seu tempo. Assumo esse meu lado precoce, atirado, afoito de agir e pensar. Um líder era o que eu era ou me comportava. Águas passadas. Hoje, penso, não sou mais assim. Questiono: o que terá me acontecido? Não sei. Como tantas coisas na vida que nem pretendo saber.

Acordei com o telefone tocando. Assustado, corri até a base e não o encontrei. A campainha insistente me causava espasmos e mais ainda os tinha por não encontrar o maldito aparelho. Encontrava-se na minha suíte. Bem em cima do armário de revistas, justamente ao lado daquela que me trouxe novamente à lembrança, o semblante juvenil de minha prima Izabella. Do outro lado da linha, minha assessora informa a hora da reunião que viria definir toda minha rotina nos próximos dias, quiçá meses. Desligo o telefone, pego a revista com a foto dela e volto a relembrar dos momentos de nossa juventude em comum.

Naquela noite, ela foi até a cozinha beber um pouco de água e admirou-se com os azulejos. Em segundos, vi em sua face, uma emoção que demonstrava ambiguamente alegria e repúdio. Questionou-me por serem iguais aos da cozinha de nossa tia Miranda e disse-lhe que intencionalmente era uma forma de não apagar as minhas raízes. Enquanto falava, servia-lhe água que, educadamente, após beber, agradeceu e retornou para a festa como quem fugisse de sua própria história.

A festa estava animada e todos se divertiam. Menos eu. Menos Izabella. Talvez porque, para ambos, aquela seria não uma oportunidade de reencontro com a família tão espalhada, mas uma retrospectiva indesejada de reatar amargos e dolorosos laços. Até hoje aquele mal entendido não havia sido direito explicado e Izabella ainda nutria por mim repulsa, medo, ódio. Sei que não tive culpa do que aconteceu, mas tornei-me vilão de uma história que, hoje, eu entendo… Não fora escrita pra mim.

Este texto faz parte do livro “Retrocências”, de Vitor Lima, autor dessa coluna.