Vivemos em uma sociedade onde a razão venceu, com certeza. Onde a harmonia dos horários, o cotidiano mutável e o contrato social complexado, superaram noções como espaço pessoal e a própria palavra “eu” e a série La Casa de Papel explora isso de forma magistral, se destacando enquanto um discursar sobre o caos, a existência e a atualidade.

Logo aviso que vi apenas o primeiro episódio da minissérie espanhola, trazida para o Brasil pela Netflix 25 de dezembro, então isto não é um review ou uma critica, mas uma análise filosófica na qual a intenção é interpretar e se maravilhar. Num resumo, La Casa de Papel se trata sobre a desordem e acima disso sobre a natureza dela, o como o ser humano sempre a paqueira, deseja e, ao mesmo tempo, evita.

A situação é “simples”, oito bandidos, cada um especialista em seu dever e com apelidos no melhor estilo “Cães de Aluguel”, são guiados por uma mente maior, o Professor. A personagem principal, e narradora, é Tokio, uma intrigante ladra que é convocada para o grupo de assaltantes por esse cabeça enigmático.

Logo quando conhecemos nossa protagonista e é posta sua importância, nos é apresentado um dos símbolos mais importantes de toda a série, a cor vermelha. A cena se inicia num quarto com luz vermelha, ela, imersa naquele mundo rubro, despertando de um sonho que curiosamente é sua própria narração. Ela levanta, põem um disfarce, constituído por uma peruca vermelha, que entra em destaque assim que ela sai de seu quarto, num momento de choque descobrimos que o resto da paisagem é repleto de um filtro azul que o torna frio e distante.

A personagem segue pelas ruas da Espanha, há um muro com um longo traço vermelho ao seu lado, reafirmando que mesmo em meio ao azul aquela cor estará lá, sempre presente, marcante, destacando algo supostamente efêmero e sem valor, um carro, números, anotações, batons, as roupas e ferramentas para o assalto.

O vermelho aqui é a cor da violência, do desejo, do destaque, do caos e do real, entretanto, principalmente naquela primeira cena, ele é um filtro plástico, mentiroso, como o seu reflexo em uma bolha, você o admira, mas sabe que está prestes a estourar. O vermelho aqui é a própria manifestação da série.

Ele está sempre contrastando ao azul, o qual seria o nosso cotidiano surreal, essa coisa inválida, na qual nos encontramos perdidos. No entanto, assim que ele chega, num instante de bruta violência as coisas são colocadas em perspectiva e somos obrigados a reconhecer a existência de um self, de um “eu”. Tal ideia é reafirmada pela forma como o personagem Berlim trata os reféns, chamando-os pelos nomes, manipulando-os… dando, para eles, forma ao caos e a desordem.

A série, enquanto racionalização do caos, se dá através da formação de um esquema racional, bem bolado,  para atingir objetivos instintivos de conquista. O Professor é um símbolo gigantesco disso, ele é o super-ego de Freud, a consciência sempre atenta e coesa, mas com um foco em agradar vontades imediatistas.

O episódio tem uma narrativa em zigue-zague, cheia de reviravoltas, mas parece sempre encontrar clareza, um caminho, um objetivo, uma forma. O azul surreal da vida banal é rompido pelo forte vermelho do caos, que coloca tudo em cheque, reorganizando o mundo numa perspectiva que o torna real, palpável, ordenado na forma mais pura e instintiva para o ser humano.

A policia, as ruas, as luzes, bem como as pessoas, são limpas nesse azul. O dinheiro, o qual é o próprio objetivo do assalto, tem detalhes azuis, revelando como até o objetivo aqui é difuso, algo criado, apenas o presente está em foco, desfilando a nossa frente ao som da loucura, entretanto a loucura é agradável e fala de forma direta.

La Casa de Papel é um poço de referências e poderia falar muito mais caso a visse por inteiro, mas essa primeira impressão foi magnífica, a profundidade desse relacionamento entre as cores com toda certeza vai além, entretanto gosto de pensar que ir além é desrespeitar o que a série nos pede, uma ida direta para o fundo do poço, um encontro com nossa alma, com aquele traço que sustenta todo o resto de baboseira que chamamos de personalidade. A série clama pelos objetivos da loucura, pelo foco da desarmonia e pelo amar o presente como o fim de nossas vidas.