A História da Marvel no Brasil - Cap. 4: Maravilhoso Mundo Marvel



Maravilhoso Mundo Marvel. Nem o mais otimista e empolgado dos marvetes poderia imaginar a revolução cultural que tomaria o mundo a partir do ano de 2008. A divulgação, no ano anterior, que um novo filme do Hulk estava sendo produzido não empolgou ninguém, apesar do envolvimento do já consagrado Edward Norton no papel principal. Pior ainda, um filme sobre o Homem de Ferro seria lançado quase que simultaneamente, trazendo o “garoto problema” de Hollywood Robert Downey Jr. como Tony Stark (papel que era de Tom Cruise desde sempre) e Jon Favreau como diretor, que até então só tinha feito comédias. O cenário não era dos mais promissores, mas até aí nada de anormal. Filmes não tinham tanta influência no que ia para as bancas. Um especialzinho do Aranha ali para acompanhar os filmes do Sam Raimi, uma coleção (incompleta) do Quarteto, encadernados dos X-Men, e a vida seguia.

O foco da Panini, em se tratando de Marvel naquele ano, eram as consequências da Guerra Civil, como a Morte do Capitão América, e os preparativos para o próximo evento, Hulk Contra o Mundo (World War Hulk no original, muito mais legal né?). Guerras Secretas voltou pela primeira vez (ficou estranho isso!) em um encadernado único e em seu formato original e continuaram saindo de forma esporádica as Bibliotecas Históricas Marvel, reapresentando agora também as primeiras histórias de Capitão América, Thor e os cinematográficos Hulk e Homem de Ferro. Esse último principalmente, merece um parágrafo especial.

Os primeiros acordes de Back in Black (AC/DC, obviamente!) declararam inaugurada a nova era Marvel nos cinemas. Qualquer dúvida sobre a competência de Robert Downey Jr. no papel acabou logo nas primeiras cenas e a certeza de que o filme seria a porta de entrada para um mundo muito mais amplo se confirmou na (então) pouco comum cena pós-créditos. “Você acha que é o único super-herói do mundo?” Sejam bem-vindos, civis! Vocês agora sabem o que já sentimos todos os meses!! Não preciso contar que o filme explodiu, Robert Downey ganhou sua carreira de volta (e se tornou o ator mais bem pago daquela década e da seguinte) e que o Incrível Hulk…bem…de fato não foi marcante.

No segundo semestre, a retomada da linha “cósmica” da Marvel voltou às bancas com a minissérie Aniquilação 2, a revista Marvel Max foi infestada de Zumbis Marvel e o Homem-Aranha chegou aquela que talvez seja sua fase mais polêmica, começando com o Retorno ao Uniforme Negro, seguindo com o marcante Um dia a Mais, culminando com Um Novo Dia. Muitos leitores antigos pularam fora devido aos acontecimentos, alguns aproveitaram o reinício para começar, mas parafraseando um famoso editor: é Marvel, não precisamos explicar.

É bem fácil falar das publicações Marvel a partir de então, já que praticamente tudo gira em torno dos mega eventos de cada ano. 2009 aqui no Brasil foi o ano de Invasão Secreta. Uma ideia interessante, com uma campanha de marketing bem criativa, mas raros foram os escritores que a aproveitaram bem. A conclusão já deu o tom de todo o ano seguinte, mas falaremos do Reinado Sombrio de Norman Osborn logo mais. Cabe destacar também o inusitado encontro do Homem-Aranha com o então eleito presidente dos EUA Barack Obama, a publicação da série Terra X pela primeira vez na íntegra e a estreia discreta da nova versão de uma equipe nível D da Marvel, os Guardiões da Galáxia, nas páginas de Marvel Apresenta #42. A maior notícia sobre a Marvel em 2009 foi a aquisição dela pela Disney, no mês de setembro, por 4 bilhões de dólares. Achou muito? Calma que o Mickey Mouse não dá ponto sem nó. O tempo mostrou e nem demorou muito.

A nova situação do Universo Marvel sob o controle de Norman Osborn é o fio condutor da fase Reinado Sombrio, que ganhou até título próprio por aqui (apresentando as histórias dos Vingadores Sombrios, Thunderbolts e Guerreiros Secretos) logo no comecinho de 2010. A linha cósmica continou forte com a série

Marvels 2. Já em abril, a Panini atingiu pela primeira vez a marca de 100 edições nos títulos Homem-Aranha, X-Men, X-Men Extra e Marvel Millennium: Homem-Aranha. Em maio, acompanhando o lançamento de Homem de Ferro 2 nos cinemas, chegou às bancas a primeira edição da mensal de Tony Stark, coisa que não acontecia por aqui desde os tempos da Bloch (não contando as 12 edições de Heróis Renascem, pela Abril). Marvel Max, esvaziada de conteúdo, foi encerrada na edição #81, mas novos títulos foram sendo lançados, como A Teia do Homem-Aranha, Ultimate Marvel (substituindo Marvel Millennium: Homem Aranha); minisséries como a do Tocha Humana original; e esporádicos como Marvel Terror. A linha autoral Icon foi representada pelos encadernados de Kick-Ass e Criminal.

Com o lançamento do primeiro filme de Thor marcado para o mês de abril, em janeiro de 2011 a revista Homem de Ferro mudou de nome para Homem de Ferro & Thor. O evento da vez foi O Cerco, que encerrou o Reinado Sombrio de Norman Osborn (e também a revista, na edição #18) e abriu as portas para uma nova Era Heróica. Capitão América (e os Vingadores Secretos) voltou a ter sua mensal em julho (afinal seu filme estrearia em agosto), mesmo mês em que uma marca bastante familiar voltou às bancas: Grandes Heróis Marvel. Era o tempo em que a variedade de formatos (e preços) começou a se fazer mais notável, com gibis para todos os tamanhos de bolso, de R$ 1,99 (a esporádica Marvel +Aventura, que republicava edições curtas fechadas) até edições de luxo de quase 3 dígitos, como- a linha Marvel Deluxe (republicando arcos

modernos). A linha Marvel Noir começou em Maio, com Homem-Aranha Noir e Deadpool trouxe 4 capas variantes em sua edição de estréia, no mês de setembro.

Os Vingadores seriam o carro-chefe da Marvel em 2012 (e nos anos seguintes também, não se engane) e os lançamentos aqui seguiriam naturalmente esse caminho. O sucesso do filme foi arrebatador e em pouco todos aqueles conceitos e personagens que os leitores se orgulhavam de saber se tornaram tão populares quanto a escalação de um time de futebol. Logo no comecinho do ano a série Os Maiores Clássicos foi inesperadamente ressuscitada para encerrar a fase de Walt Simonson no Thor. Em abril, mês de lançamento do filme, foi inaugurada a era das “caixinhas” com a Coleção Histórica Marvel: Os Vingadores. Em paralelo, o evento do ano foi A Essência do Medo, mas não prejudicou o relançamento de A Era do Apocalypse completa em 6 encadernados. Como o Homem-Aranha enfrentava o Lagarto nas telas em O Espetacular Homem-Aranha, um encadernado com um quebra entre os dois também foi pra banca, mesmo sem ninguém pedir. Em dezembro, o apagar das luzes do ano também encerrou as mensais de Deadpool (na edição #16) e a nova versão da Grandes Heróis Marvel (edição #18).

Robert Downey Jr. já era o Christopher Reeve de sua época e o sucesso de Homem de Ferro 3 nas bilheterias foi meramente a confirmação deste fato. Porém, as bancas não foram assim tão influenciadas pela última aventura solo do Vingador Dourado. Talvez pelo fato de 2013 (no Brasil) ter sido a mesma época em que a Marvel proporcionou uma das maiores mudanças em sua linha, criativamente denominada Nova Marvel. Depois do evento Vingadores versus X-Men, todos os títulos foram reiniciados, tanto lá fora como aqui. Entre setembro e dezembro, tivemos edições #1 de Vingadores, Avante, Vingadores!, X-Men, Wolverine, Capitão América & Gavião Arqueiro, Homem de Ferro & Thor, Homem Aranha Superior, Deadpool, Justiceiro, Demolidor, Defensores, Hulk, Vingadores Sombrios e Universo Marvel. Para não ficarmos apenas nas novidades mensais, tivemos também encadernados do Homem-Aranha (A Morte de Jean deWolff, Tormento e Homem-Aranha 2099), X-Men (A Queda dos Mutantes, em 3 volumes), Os Supremos volume 3, Wolverine Max, Paraíso X, e a volta das graphic novels com Vingadores: Guerra sem Fim. Falando em graphic novels, pela primeira vez em anos uma nova editora passaria a publicar material da Marvel. Num primeiro momento em fase de testes, e meses depois de maneira definitiva, a Salvat invadiu as bancas com sua Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, reapresentando a cada 15 dias, em capa dura, arcos históricos da editora. Um sucesso que continua até hoje, já com diversas expansões, e sem data de encerramento.

E o primeiro evento da Nova Marvel teve início já em janeiro de 2014: A Era de Ultron. Mais autocontido, diferente do segundo (sim, agora são dois por ano!), Infinito, que dominou as publicações Marvel no segundo semestre. O Selvagem Wolverine abriu uma nova coleção de títulos lançados diretamente encadernados, uma tendência a partir de então. Parte da fase de Peter David a frente do Hulk também ganhou 3 encadernados, assim como mais dois eventos históricos dos X-Men: Programa de Extermínio e Atração Fatal. Não foram as únicas mutunices que ganharam destaque, já que Dias de Um Futuro Esquecido ganhou as telas, nada mais justo que o arco original fosse contemplado com uma edição luxuosa para livrarias em capa dura. Falando em capa dura, uma coleção de histórias fechadas centradas nos vilões – iniciada com Loki e Caveira Vermelha – foi lançada ao longo de todo o ano e, depois de quase 30 anos, Surfista Prateado: Parábola voltou as lojas, assim como o Demolidor de Frank Miller. E o sucesso inesperado (a essa altura, nem tanto) do filme Guardiões da Galáxia motivou o lançamento da primeira mensal do grupo em terras brasileiras, em dezembro, afinal todos éramos Groot! Para encerrar o ano, e de maneira surpreendente, Miracleman foi relançado em edições mensais.

2015 já começou com uma nova coleção de encadernados da Salvat: Os Heróis Mais Poderosos da Marvel. Diferente da primeira, focada em arcos completos, essa apresentava personagens diferentes a cada edição, com um arco fechado marcante. A saga do Homem-Aranha Superior foi concluída na edição #19, em junho, e no mês seguinte

o Amigo da Vizinhança reestreou em O Espetacular Homem-Aranha #1, que pela primeira vez ofereceu aos leitores opções de papel interno, com edições no couché e no pisa-brite. Mas não foi a única mensal nova do ano: Wolverine havia sido relançado em janeiro, Vingadores: Os Heróis Mais Poderosos da Terra saiu em abril, Deadpool (de novo, outra vez) voltou em junho e Ultimate Marvel (again, again) em agosto. O arco dos X-Men encadernado dessa vez foi Massacre (em 4 edições). Pecado Original (junho) e Vingadores & X-Men: Eixo (dezembro) foram os eventos da vez, mas O EVENTO foi o retorno da franquia Star Wars para a Marvel, ganhando pela primeira vez no Brasil duas revistas mensais: Star Wars e Darth Vader, ambas parte do cânone de histórias válido desde a aquisição da franquia pela Disney.

E mais uma revolução se aproximava. Quem estava acompanhando as séries dos Vingadores escritas por Jonathan Hickman (e mesmo o trabalho anterior do autor, no Quarteto Fantástico) já havia percebido que a conclusão dos plots sendo desenvolvidos há anos só poderia ser grandiosa. A Panini, que de boba não tem nada, já vinha republicando os arcos da Nova Marvel em capa dura para preparar os desavisados para o (realmente) grande evento de 2016: Guerras Secretas! Mas antes de descrevermos melhor a publicação de Guerras Secretas (lançada em julho aqui, exatamente 30 anos depois da original), vamos ao que saiu nos primeiros meses do ano. Cavaleiro da Lua e Punho de Ferro voltaram para as bancas em encadernados, assim como a estreia da nova Miss Marvel (essa com opções de capa dura ou cartão), Elektra, Soldado Invernal e Homem-Formiga (não preciso lembrar que ele ganhou filme no ano anterior né?). Uma “novíssima” mensal dos Vingadores foi lançada, trazendo as histórias da nova Thor e do novo Capitão América. Deadpool ganhou uma coleção de encadernados republicando sua fase “clássica” (o filme foi legal demais, vamos combinar), o Homem-Aranha uma graphic novel inédita, diversas caixinhas de Coleções Históricas, mais dois encadernados de luxo dos X-Men (reapresentando Chris Claremont e John Byrne para uma nova geração de fãs), fases mais recentes encadernadas e…Guerras Secretas! Além da mini principal, todas as mensais foram substituídas por edições temáticas relacionadas à saga. Uma vez que o mundo de batalha dessa vez foi formado por realidades diferentes, pudemos rever arcos clássicos e versões alternativas de nossos personagens favoritos coexistindo, da Era do Apocalypse ao Mestre do Kung-Fu, do futuro de 2099 ao Velho Oeste.

Aos poucos, as mensais foram sendo relançadas (todas do número #1 DE NOVO, obviamente), na fase conhecida como Toda Nova Toda Diferente Marvel (criativo né?). Editorialmente, a Panini aproveitou para enterrar de vez o papel pisa-brite e aderir de vez ao couché. Foi também a diminuição das revistas com mix e mais páginas (só 3 permaneceram: Universo Marvel, Avante Vingadores e Aranhaverso) e a expansão dos títulos próprios. Personagens que nunca tiveram mensal aqui no Brasil ganharam a sua, como o Doutor Estranho (embalado pelo filme, naturalmente), além de Thor, Homem de Ferro, Capitão América e os já tradicionais Homem-Aranha e X-Men. O Velho Logan, uma versão futurista do Wolverine sobrevivente

das Guerras Secretas, já ganhou sua própria mensal (ocupando o vácuo deixado pela morte do Wolverine original) e Deadpool, na crista da onda do sucesso, além de sua mensal regular, ganhou também uma edição almanaque (Deadpool Extra) e passou a dividir uma série com o principal herói da casa, Homem-Aranha & Deadpool. Quem poderia sonhar que entraríamos assim em 2017, ano do cinquentenário da Marvel no Brasil?

E a decisão de publicar arcos fechados diretamente em encadernados realmente vingou. Foi dessa maneira que os leitores brasileiros tiveram acesso às histórias do Motoqueiro Fantasma (em sua versão “motorista”), Luke Cage & Punho de Ferro e Agentes da S.H.I.E.L.D., amparados por suas versões televisivas, além de Viúva Negra e Gavião Arqueiro, já consolidados entre os fãs. Thanos, o Titã Louco, que vinha se preparando desde 2012 para se tornar o vilão mais perigoso da Marvel no cinema, estrelou uma nova trilogia de histórias, em graphic novels. Já a iminência do lançamento do filme fez a Panini agilizar o lançamento de um encadernado da fase clássica de Chris Claremont e Bill Sienkiewicz a frente dos Novos Mutantes (mas não adiantou muito, pois o filme acabou ficando para 2019). Guardiões da Galáxia 2 ajudou a trazer de volta as histórias iniciais dessa versão da equipe, que tinha estreado (bem discretamente, lembra?) lá em 2009 e deixada de lado. E a Salvat, sem nenhuma misericórdia do salário do trabalhador, adicionou mais uma coleção definitiva ao seu cardápio de lombadas desenhadas, dessa vez centrada exclusivamente no Homem-Aranha. Haja estante!

Sentindo falta do evento Marvel de 2017? Ora, nada melhor que celebrar o décimo aniversário de um evento importante. Ainda mais quando ele acabou de ganhar fama no cinema! Em setembro, chegou às bancas a primeira edição de Guerra Civil 2, além de infinitas (opa, esse termo cabe melhor na Distinta Concorrência) ramificações pelas mensais.

2018 começou em alto nível com o lançamento (em encadernado capa dura, que dúvida!) do badalado Visão do roteirista Tom King. Os anúncios apontam que a Trilogia do Infinito será republicada em formato original (provavelmente em abril, simultaneamente ao lançamento de Vingadores: Guerra Infinita nos cinemas) e que os encadernados continuarão firmes e fortes, embora as mensais sigam sempre sendo uma opção mais em conta para quem gosta de acompanhar o cenário geral. Ainda mais porque o evento Império Secreto deve, naturalmente, contaminar todo o resto da linha, como é praxe.

Ufa! Que viagem hein? Encerramos por aqui esse resumão sobre esses 50 primeiros anos da Marvel no Brasil. De gibis gratuitos distribuídos em postos de gasolina até recordistas de bilheterias, nas graças dos nerds e do povão. Espero sinceramente que esta série de matérias tenha sido interessante e informativa para você que está acompanhando até agora. E se elas por acaso atiçaram algum marvete adormecido a dar uma olhada mais detalhada no que vem saindo, minha satisfação será multiplicada! Obrigado e nos vemos na próxima semana!