HQ | A história da Marvel no Brasil - Cap. 3: Mutantes



Os dois últimos anos da década de 80 deram o tom do que estaria por vir. Mas ninguém percebeu. O sucesso dos X-Men, que naquela época já tinha um título irmão – Novos Mutantes – era realidade e a demanda para um título próprio dos mutantes era incontrolável. A simpática Superaventuras Marvel tinha ficado pequena para eles. Assim, depois de uma minissérie em 4 edições lançada em junho/julho de 1988, chegou às bancas em novembro daquele mesmo ano a primeira edição da revista X-Men, nascida das cinzas da histórica Heróis da TV, literalmente “explodida” por seu editor, Leandro Luigi Del Manto, em sua edição 112.

Mas não imaginem que aquela foi uma época de calmaria. As revistas mensais “magrinhas” de 68 páginas e os lançamentos de alguns materiais da Marvel pela Editora Globo (antiga RGE) colocou em dúvida o monopólio existente desde 1983. A coisa começou devagarinho, com materiais periféricos da Marvel – Transformers e G.I. Joe (Comandos em Ação). Ninguém deu muita bola. Mais pra frente apareceram a mini do Pantera Negra e a Graphic Novel de Dreadstar. Outros materiais seriam lançados nos primeiros anos da década de 90, mas a gente já chega lá.

Para encerrar a década com “chave de ouro”, a Abril colocou nas bancas dois belos lançamentos: A Teia do Aranha, republicação, em formato magazine, das histórias do Homem-Aranha nos anos 60, inicialmente divulgado como em “preto e branco” mas lançado colorido; e o Superalmanaque Marvel, com 260 páginas de Aranha, Quarteto, X-Men e o final da Saga de Rom contra os Espectros.

E o início da década de 90 prometia! Pra começar, as revistas mensais recuperaram a tradicionais 84 páginas, apesar da lombada quadrada nunca mais ter dado as caras. O evento do ano seria Guerras Secretas 2, exaustivamente anunciado em todos os gibis, envolvendo praticamente todos os títulos. A Teia do Aranha diminuiu de tamanho para se tornar mais acessível (e pra padronizar a coleção) e uma linha de graphic novels exclusiva de Marvel vinha aí. Mas…Fernando Collor assumiu a presidência, confiscou a grana de todo mundo e as revistas sumiram das bancas!!

Passada a turbulência, devagarinho as coisas foram se acertando. A Globo novamente deu as caras, lançando a revista mensal do Dreadstar, retomando exatamente de onde a Abril tinha parado na finada Epic Marvel. Aliás, a revista durou exatamente o necessário para fechar a fase Marvel/Epic do título, 10 edições. Voltando à Abril, Guerras Secretas 2 foi uma decepção total, que perdurou até fevereiro de 91. Em compensação, a série Graphic Marvel presenteou os fãs com materiais bem legais como Hulk e Coisa, Justiceiro: Corporação de Assassinos e Retorno ao Grande Nada, A Vingança do Monólito Vivo, Mulher-Hulk de John Byrne, Doutor Estranho e Doutor Destino, Surfista Prateado, entre outros. Além da marca histórica de 100 edições da Superaventuras Marvel, que dedicou todas as páginas da edição ao seu carro-chefe, o Demolidor. Em dezembro, 260 páginas de Homem-Aranha no Superalmanaque Marvel.

Em 1991, foi a vez do Capitão América completar 50 anos – o que motivou uma edição especial de republicações – e de Homem-Aranha e Hulk atingirem – finalmente! – a 100ª edição. A do Aranha, em especial, trouxe o casamento do aracnídeo, fato que teve grande repercussão na época. A Globo deu as caras novamente com a Graphic Novel do Excalibur, título que depois passou a integrar o mix da revista Marvel Force, que trazia ainda Novos Guerreiros, Motoqueiro Fantasma, Cavaleiro da Lua, Quarteto Futuro, Moritui e Esquadrão Supremo. A Abril não gostou nada, pois esses títulos citavam eventos que ainda não haviam sido mostrados em suas edições, mas investiu no título próprio do Justiceiro, que teve vida bem curta (só 8 edições). Além disso, investiu em um novo álbum de figurinhas, com os personagens da época, em imagens tiradas dos “Handbooks” americanos. Fechou o ano a série Épicos Marvel, trazendo os encontros de X-Men e Quarteto Fantástico, X-Men e Vingadores, e Mefisto contra os Heróis Marvel. O Superalmanaque já era tradição no final de ano, apesar de em 1991 ter sido lançado também no mês de julho, e trouxe na edição #4, em novembro, Thor e Homem de Ferro dividindo suas páginas. As republicações também estavam em alta, e a série Marvel Saga reapresentou Vingadores e a Coroa da Serpente e o Julgamento de Reed Richards em suas duas primeiras edições.

Lembra o que eu disse sobre mutantes? Logo em janeiro, a edição 5 do Superalmanaque Marvel foi inteirinha dedicada a eles. Em março de 1992 foi lançada a revista mensal Wolverine, trazendo as histórias solo do mutante canadense, que já tinha ganho uma edição especial em formato americano meses antes. Em julho e agosto, foram lançadas mais duas edições do Superalmanaque Marvel, trazendo a saga completa “A Guerra do Alto Evolucionário”, e o Homem-Aranha teve duas – repito, DUAS – edições ANUAIS (!) no mesmo ano, em maio e dezembro. Tivemos também a minissérie do Nick Fury e promessa da mini da Mulher-Hulk, que até hoje não saiu. A tom foi mantido em 1993, com duas edições seguidas de Superalmanaque Marvel no meio do ano, dessa vez apresentando “Ataques Atlantes”, e, no segundo semestre, as atenções se voltaram para “Atos de Vingança” que se espalhou por todas as revistas mensais. A grande inovação ficou por conta da estréia de Homem-Aranha 2099, em revista própria.

Em 1994, nenhuma novidade além dos anuais de Hulk, Capitão América e X-Men, da ampliação da linha com o lançamento de X-Men 2009 e do fim do outrora especial Superalmanaque, com cada vez menos páginas (e histórias piores). As edições especiais e minisséries em formato americano também estavam em voga, com destaque para Demolidor: o Homem sem Medo, com Frank Miller e John Romita Jr. recontando a origem do personagem. A partir de 1995, e durante todo o ano de 1996, a avalanche de títulos mutantes se tornou inevitável, principalmente em virtude da popularização dos personagens graças ao desenho animado exibido pela Rede Globo, desde o início de 94. Começou com o lançamento das adaptações dos desenho (foram três minisséries no total), passando por uma minissérie de luxo (com o arco final de Chris Claremont), uma nova edição anual, um edição extra de X-Men, uma nova revista mensal em formato americano – Os Fabulosos X-Men – edições “gigantes”, edições especiais de X-Force e X-Factor, a “transformação” da já decadente Superaventuras Marvel em “título X” com as aventuras do mutante Cable, minissérie de luxo de Ciclope e Fênix, edições de luxo do Wolverine, e todas, todas as edições trimestrais de Grandes Heróis Marvel do ano (1996) trazendo histórias dos X-Men e suas franquias. Ufa! Para não dizer que só falei de mutantes, Novos Guerreiros ganhou sua ediçãozinha especial, e o Aranha foi agraciado com uma mini em duas edições trazendo a saga “Carnificina Máxima”.

Se alguém ainda tinha dúvida, 1997 se encarregou de saná-la, com o cancelamento das revistas mensais do Capitão América (214 edições), Hulk (165 edições) e Superaventuras Marvel (175 edições), abrindo caminho para Marvel 97 (depois 98, 99, 2000) – trazendo as “antigas estrelas agora rejeitados” Capitão, Hulk, Thor, Demolidor, Vingadores, Motoqueiro Fantasma – e Fator X, mais um título dos pupilos de Charles Xavier. Percebeu que, naquele tempo, o Universo Marvel era composto por X-Men, Homem-Aranha (que também ganhou seu desenho animado, exibido também pela Globo), e O Resto? Mesmo com o relativo sucesso do filme Blade, em agosto de 1998, mas convenhamos, o personagem não conseguia vender gibi nem mesmo nos Estados Unidos.

Assim foi até julho de 2000, exceção feita ao ano de 1999, quando Capitão América, Vingadores, Quarteto Fantástico e Homem de Ferro ganharam revistas mensais graças ao evento “Heróis Renascem”, encerradas no final daquele mesmo ano. 1999 foi o ano em que a Mythos Editora, capitaneada por dois velhos conhecido dos leitores da Abril, Hélcio de Carvalho e Dorival Vitor Lopes, começou a lançar algumas coisinhas da Casa das Idéias, com destaque para os encontros com os heróis do Ultraverso, da Malibu Comics e edições de Gambit Vampira, dos X-Men.

Em julho de 2000, todos os títulos da Marvel trouxeram aquela temível página final informando sobre seu cancelamento. Estava decretado o fim do formatinho, nas bancas com a Marvel desde os tempos da Bloch, nos anos 70. A partir do dia 11 de Agosto, mesma data do lançamento do primeiro filme dos X-Men, chegaria às bancas a linha Super-Heróis Premium! Homem-Aranha, X-Men e Grandes Heróis Marvel se tornaram almanaques mensais de 160 páginas, em formato americano. A iniciativa não teria vida longa. Em dezembro de 2001, de maneira surpreendente, os três títulos, mais a Espada Selvagem de Conan (em sua edição 205) e a recém-lançada Marvel Século 21 (trazendo a linha Ultimate da editora) foram definitivamente cancelados pela Editora Abril, que graças a um desentendimento com a licenciadora internacional da Marvel, a Panini Group da Itália, não publicaria mais o material da editora em terras tupiniquins.

Porém, já em janeiro de 2002, sem qualquer tipo de hiato ou interrupção, já estavam nas bancas as revistas Homem-AranhaX-MenX-Men ExtraPaladinos MarvelMarvel Millennium Marvel 2002, por intermédio da própria Panini, aliada a já conhecida Mythos Editora, que assumiu a publicação de Conan, o Bárbaro, no mesmo formato e do ponto em que a Abril havia parado. Quem acabou tendo prejuízo também foi a Pandora Books , que já estava investindo em materiais da Marvel como Capitão Bretanha e o breve (apenas três edições) Almanaque Marvel. Em meados daquele mesmo ano, a linha se expandiu, com o lançamento de Quarteto Fantástico & Capitão Marvel – o primeiro título da chamada “linha econômica”, num formato intermediário entre o americano e o formatinho, com 52 páginas – Marvel Mangaverso e a bimestral Marvel Apresenta. A Panini aproveitou também o arrebatador sucesso de Homem-Aranha – O Filme, para investir em especiais com o personagem, como a minissérie Homem-Aranha: Azul e o primeiro encadernado do aracnídeo, trazendo os clássicos de John Romita. Wolverine foi outro que também recebeu bastante destaque nesse primeiro ano da Panini, com as minisséries Origem Netsuke.

O ano de 2003 seria ainda melhor. A marca Marvel estava forte na mídia com os lançamentos das versões cinematográficas de DemolidorHulk e o segundo X-Men. Todos ganharam suas respectivas adaptações, prelúdios, especiais, minisséries…o Homem sem Medo acabou agraciado com os dois primeiros de uma série de encadernados focando a fase de Frank Miller no título. Já os fãs de mutantes tiveram a oportunidade de rever a época em que o lápis estava por conta de Jim Lee, e os do Hulk puderam reler Futuro Imperfeito, uma das melhores histórias do Gigante Esmeralda. Wolverine também não ficou de fora, e ganhou uma nova edição para Arma X .

A linha de títulos mensais também foi incrementada. Logo em fevereiro, a revista Paladinos Marvel foi dividida em Hulk & Demolidor Justiceiro & Elektra, como parte da “linha econômica”. Entrou no embalo também a minissérie Emergência: A Serviço da Vida. Já em julho, além do lançamento da minissérie Agente X, que veio no embalo da mini do Deadpool, novas mudanças, tanto no formato – “americano” para todas as revistas – como no papel – “pisa-brite” – para evitar um perigoso aumento nos preços. Nos meses de setembro e outubro, novos títulos mensais expandiram a linha, Marvel MAX em setembro, apresentando as histórias “adultas” da editora, e Arma X em outubro, com – adivinha? – mais títulos mutantes. A Marvel nunca teve tanta revista na banca como na Era Panini! E a Mythos também investia nos correspondentes nacionais dos Essentials americanos (edições encadernadas de histórias clássicas, em preto-e-branco), com a linha “Edição Histórica”. X-Men, Wolverine, Homem-Aranha e Surfista Prateado foram os agraciados até então. Justiça seja feita, a Abril já havia ensaiado a iniciativa em 2001, também com Wolverine.

Já em janeiro do ano seguinte, vimos o primeiro e último suspiro da revista Marvel 2004. Em fevereiro, estreava Os Poderosos Vingadores, além de Hulk (com o gigante verde e o Capitão Marvel) e Demolidor (com Justiceiro e Elektra, além do personagem título). Nas páginas de Marvel MAX, começaram as histórias de Poder Supremo, uma nova versão do Esquadrão Supremo, e Arma X ganhou mais páginas para publicar as histórias de Emma Frost Mística. Diversas minisséries e encadernados foram lançados em 2004, com destaque para Vingadores X Liga da JustiçaHulk Cinza,1602 (primeira produção de Neil Gaiman, o consagrado autor de Sandman, para a Marvel) e os volumes 2 e 3 dos Maiores Clássicos do Homem Aranha , apresentando a Última Caçada de Kraven e a Morte de Gwen Stacy, aproveitando o sucesso de Homem-Aranha 2 nas telas. Falando em cinema, Justiceiro jamais foi lançado aqui, mas a adaptação em quadrinhos foi lançada pela Panini. Foi em 2004 também que se encerrou a série de clássicos do Demolidor por Frank Miller, em seu quarto volume. Em novembro, Arma X foi encerrada, abrindo espaço para o lançamento da revista mensal do Wolverine.

Em 2005, logo no comecinho de janeiro, chegou às bancas a Enciclopédia Marvel, um guia completo (ou quase) dos personagens mais relevantes da editora até então. No mês seguinte, chegou às bancas a adaptação do filme Elektra. Maio foi o mês que o “formatinho” retornou às bancas, assustando muita gente. Mas era apenas o lançamento de Geração Marvel, apresentando a linha Marvel Age, direcionada ao público mais jovem. Em junho, a revista do Hulk foi encerrada (de novo!) sendo substituída no mês seguinte por Universo Marvel, capitaneada pelo Quarteto Fantástico , que fazia grande sucesso nos cinemas. Novos especiais com Thor e Homem de Ferro foram lançados, e o ano se encerrou com a linha Pocket Panini, mais formatinhos mensais apresentando séries secundárias completas, como Thor: Filho de Asgard, Inumanos, Fugitivos, Mulher-Hulk Distrito Xcontinuando 2006 adentro.

Não houve grandes mudanças na linha Marvel em 2006. As principais atrações do ano foram os anuais(DemolidorVingadoresX-Men e a linha Millennium ganharam os seus), a transformação dos Poderosos Vingadores para Novos Vingadores (graças ao relançamento da série por Brian Michael Bendis) e a saga Dinastia M, minissérie que se alastrou e interligou praticamente toda a linha, exceção feita a Marvel MAX e Marvel Millennium. Algumas surpresas apareceram, é verdade, como Marvel Blast!(revista de atividades e informação, que durou apenas duas edições) e minisséries como VampiraFugitivos Aranã. Para comemorar a marca de 50 edições, atingida no mês de fevereiro, os leitores foram presentados com um Baralho Marvel, e em junho foi a vez dos Vingadores ganharem sua primeira edição encadernada de clássicos, com a Guerra Kree-Skrull, publicada no Brasil pela primeira vez sem cortes. Aproveitando o lançamento de X-Men 3 nos cinemas, a Panini presentou os fãs dos mutantes com seu quarto encadernado, trazendo justamente a Saga da Fênix Negra. Em dezembro, foi a vez do Homem Aranha ganhar seu quarto encadernado (trazendo as histórias produzidas por Frank Miller para o aracnídeo) e os Vingadores, o seu segundo (com as aventuras dos Vingadores da Costa Oeste de John Byrne).

Com o encerramento da revista Demolidor em dezembro, uma nova revista chegou em janeiro de 2007, Marvel Action!, trazendo as aventuras do próprio Demolidor, Pantera Negra e a estréia do Cavaleiro da LuaMarvel MAX sofreu uma pequena reformulação, passando a ter 100 páginas com a volta das histórias menos ligadas ao Universo Marvel, incluindo o Justiceiro de Garth Ennis. Os Vingadores ganharam uma nova revista, Avante, Vingadores!, capitaneada pela série Jovens Vingadores, que faz companhia às séries Fugitivos e Mulher-Hulk.

O ano se encerrou com a agora multimídia Guerra Civil, evento que causou furor entre os fãs no mundo inteiro. Os Eternos, cujas histórias estavam sumidas há mais de uma década, voltaram em uma minissérie produzida por Neil Gaiman. E claro, mutantes em demasia.

Mas o foco da Marvel NO MUNDO mudaria a partir de 2008, o que abordaremos no próximo e derradeiro capítulo.