Dragão Indica | X-men: A saga da Fênix Negra



Apesar de se tratar de uma história clássica, já esmiuçada e comentada à exaustão, adaptada para cinema e animação, indicar A SAGA DA FÊNIX NEGRA é sempre uma coisa prazerosa. Talvez por eu ter acompanhado toda a construção da história em sua época de lançamento aqui no Brasil – e acreditem, há uma enorme diferença na experiência de acompanhar a história sendo construída e pegar um encadernado anos depois e ler tudo numa tarde só.

Naquele tempo, escritores tinham tempo para construir suas histórias. Não havia aquela obrigação editorial de ir fechando narrativas em 6 ou 8 edições para encaderná-las no mês seguinte, ou interromper uma narrativa para que os personagens fossem participar do crossover anual da editora. Não havia uma edição especial Alpha para abrir uma sequência importante de histórias e uma Omega para fechar. A leitura era contínua, linear, e os gibis de equipe, por incrível que pareça, se caracterizavam tanto pelas ameaças enfrentadas quanto pela interação de seus personagens.

Chris Claremont assumiu o título X-Men (que em breve ganharia o adjetivo Uncanny) logo depois da reformulação que resgatou o conceito do ostracismo, e aos poucos foi definindo com quais personagens e conceitos ia trabalhar. Ciclope como líder independente do Professor Xavier, Wolverine o “lobo solitário”, Noturno a aberração gentil, Tempestade uma deusa ingênua, Colossus o brutamontes de coração bom. E havia Jean Grey. Sobrevivente da formação anterior, seria tratada apenas como a namorada telepata do líder? Um acidente ao voltar de uma missão no espaço deu a ela os poderes de uma deusa cósmica (era o que sabíamos na época, ora). Como um personagem desses poderia ser trabalhado mensalmente? Que inimigos seriam páreo para ela?

Muito sabiamente, Claremont afastou a Fênix o quanto pode das aventuras da equipe. A princípio Jean permaneceu internada recuperando-se de sua nova condição. Depois, desafios a sua altura e de ninguém mais, um dos arautos de Galactus – o Senhor do Fogo – e a ameaça a realidade por meio do Cristal M´Kraan, no coração do Império Shiar. De volta a Terra, o que caberia à Jean? Nada! Vamos separar Jean dos X-Men e fazê-la acreditar que eles estão mortos, levando-a a calmaria da Ilha Muir. E foi na tranquilidade da Escócia, sem ameaças explícitas, que as trevas começaram a se apossar da bondosa Jean Grey.

Notem que o que descrevi no parágrafo acima foi contado ao longo de 4 anos de histórias regulares. Plots e subplots que não encontram mais espaço nas narrativas mais modernas. Quando chegou a hora da equipe se reencontrar com sua integrante mais poderosa, a tragédia dela já estava anunciada, e só o leitor sabia. Os gatilhos disparados pelo Mestre Mental, os devaneios de Jean com sua ancestral no século XVII, o maléfico Clube do Inferno…e nossos heróis ocupados combatendo o bom combate e sobrevivendo juntos. Quando tudo parecia resolvido, um resgate improvável e a virada heroica de um jogo perdido, vem a surpresa: Jean não poderia mais resistir ao poder que habitava dentro de si, capaz de consumir estrelas inteiras, matando bilhões no processo. Era a Fênix Negra.

Histórias heroicas quase sempre envolvem redenção. Mas como recuperar alguém como a Fênix? Os leitores se afeiçoaram a personagem no decorrer dos anos, mas valia a pena torcer por ela? Mesmo quando o grande amor da vida dela coloca isso em questão? Afinal, ele era Scott Summers líder dos X-Men ou Scott Summers, namorado de Jean Grey? É drama, é novelão? Sim! Mas era empolgante e diferente de quase tudo visto até então.

Tão diferente, tão questionável, que o final foi modificado antes da publicação e até hoje se discute qual seria o melhor. Tão inusitada que no mês seguinte já começou a se buscar meios de superar o que havia sido estabelecido. Tão FABULOSA que hoje, quase 40 anos depois, a história é um marco da franquia de maior sucesso dos quadrinhos mainstream.

Onde comprar? A edição encadernada A SAGA DA FÊNIX NEGRA foi relançada mais recentemente pela Panini em janeiro de 2016, podendo ainda ser encontrada em comic shops e livrarias. Antes disso, foi publicada diversas vezes pela Editora Abril, pela própria Panini, e pela Salvat.