Dragão Colunista | O que faz a série ser boa?



Everything Sucks! | Temas sérios em formas suaves 

A nova aposta original da Netflix, lançada em fevereiro, não ganhou tanta repercussão, e a definição na sua sinopse de “série adolescente” parece atrapalhar sua expansão. De fato, o enredo gira em torno de alunos do ensino médio na cidade de Boring (EUA) em 1996, mas subtramas ganham protagonismo em alguns episódios e tratam de temas comuns aos adolescentes, mas também traz temáticas interessantes para quem circunda esse universo, como pais e educadores. 

Para os viciados em série, é tranquilo acompanhar, mas para quem não tem o costume de assistir a seriados “Everything Sucks” é uma boa dica: são apenas 10 capítulos, cerca de 30 minutos cada. A trama é, às vezes, confusa, o telespectador nos episódios do meio pode não se sentir tão motivado a terminar, mas, no fim, a narrativa se segura em algumas boas subtramas

1) Ausência dos pais 

Luke ( Jahi Di’Allo Winston), um novato na escola Boring High School, quer se tornar um adolescente padrão. Busca um primeiro namoro, aventuras nas descobertas sexuais e nas experiências com álcool. Mas é recorrente o vazio que seus pais têm em sua vida. Às vezes, chega a assustar que um garoto tão jovem viva quase só, por conta do emprego intenso de aeromoça da sua mãe, e pela falta de seu pai. Sobre a figura paterna, Luke mata a saudade com fitas que seu pai deixou gravadas por ele sobre temas tolos e algumas reflexões da vida. Luke é cativante pela sua “auto-formação”, o garoto se mostra bondoso, mesmo com as diversas carências, e maduro, mas fica muito claro as feridas dessas ausências. 

2) Descoberta da sexualidade

Peyton Kennedy interpreta Kate, a filha do diretor da escola atrapalhada com a vida e com seu jeito de ser. Essa parte da história se destaca pela sutileza e inovação- sem estereótipos- que apresentam os questionamentos da personagem. Kate começa a namorar Luke, mas reluta em beijar o garoto. Com o tempo, ela percebe que gosta de meninas e, ainda não tão convicta de sua orientação, faz o telespectador torcer para que ela sane suas aflições. Vale ressalta a atuação de Peyton.  A atriz  de 14 anos surpreende em assumir um papel difícil. Ademais, a garota rouba a cena, ou melhor, o áudio com o charme de sua voz grave (anote esse nome!) 

3) Atemporal

O mais legal de Everything Sucks! é a abordagem atemporal. Os questionamentos e descobertas adolescentes na trama são comuns no mundo atual. O bullying inclusive é ressaltado nas relações de poder entre novatos e veteranos- é uma boa sugestão para aqueles que insistem em desvalorizar os problemas adolescentes. 

4) Fotografia 

Gostando ou não do enredo, a fotografia é incrível, mesmo que simples. Como a história se passa nos anos 90, alguns recursos como um zoom rápido e direto são bastante usados, com isso, sentir parte do universo é fácil, e nos traz uma nostalgia de séries como “Um Maluco no Pedaço” e “Kenan e Kel”.

Para bater o martelo… 

De fato, existem alguns deslizes na trama, mas Everything Sucks! é uma ótima série para sentir o afago das coisas em comuns que todos nós temos: nossas lutas, independente da idade e dos tempos.