Dragão Colunista - Dark Souls



O dia 25 de maio de 2018 vai ser uma data especial para aqueles gamers que se dedicam com amor a espancar teclados e atirar joysticks na parede. Nesse dia chegará ao mercado, para PS4, XBOX, Switch e PC a remasterização do Dark Souls original.

Para quem ainda não sabe, embora eu duvide muito que alguém desconheça o fato a seguir, foi Dark Souls, jogo que é o sucessor espiritual de Demon’s Soul (exclusivo PS3), que redefiniu o conceito de desafio nos jogos da geração passada até hoje. Sua influência foi tão poderosa e decisiva que outras produtoras criaram novas I.P.s para acompanhar esse mercado crescente.

Tivemos então jogos realmente bons, como Nioh e outros genéricos e medianos como Lords of The Fallen. Mas não. Não vou abordar aqui aquilo que todos os que suaram, choraram e vibraram durante qualquer jogo da série Souls já sabem. Sua dificuldade dura mas justa àqueles que se dedicam, sua jogabilidade magistral, seus desafios técnicos. Tudo isso todo mundo está cansado de saber.

O que quero tratar aqui nessa texto é uma frase singela, ingênua, porém dita com a arrogante certeza daqueles que não tem uma idéia muito clara daquilo que falam. Que frase é essa? Simples. “Dark Souls não tem história.” Pois é, já ouvi ou li essa frase uma centena de vezes e uma centena de vezes argumentei que sim, a série Souls tem enredo, e um dos mais belos e complexos do mundo dos games. Mas por quê isso acontece? Como um roteiro tão bem feito e competentemente construído é simplesmente ignorado por tantos jogadores? Talvez o maior motivo seja o modo como a história é apresentada. Vejam bem. Estamos acostumados a jogos cada vez mais cinematográficos, onde o enredo nos é entregue exatamente como num filme. Bem, isso não acontece na série Souls. O conceito usado aqui é bem mais complexo e exige uma dedicação muito maior. O que o jogo faz, e usar sua lore, que no universo dos games acabou tomando uma proporção bem mais amplo do que meramente a “história” do jogo. A idéia de lore não é nova. Outros jogos, Halo ou WoW por exemplo, já fizeram uso dela em maior ou menor grau.

Mas o que exatamente seria o “lore”? Fica mais fácil entender quando percebemos que a palavra vem de Folklore, ou seja, folclore. Se desmembrarmos a palavra em FOLK e LORE, teremos POVO e TRADIÇÕES, e a série Souls tem exatamente esse sentido. Fragmentos de histórias, pequenas lendas, os acontecimentos envolvendo um local, ou uma arma, ou um item. Todos esses artifícios narrativos que estão separados e fragmentados, nos são entregues nas telas de loading, nas descrições de itens, nas escassas falas dos N.P.C.s e formam uma história maior, que depois precisa ser ordenada e encaixada no todo para fazer sentido. É portanto compreensível que muitos jogadores não percebam por exemplo, a ligação entre o Cavaleiro Artorias e o Grande Lobo Sif e o quanto a história desses dois personagens é bela e trágica. Ou ainda, o quanto a traição de Seth, o sem escamas, foi decisiva para os caminhos que o jogo tomou.

Outro ponto interessante é que agindo desse modo a FROMSOFTWARE, produtora do jogo, intensifica a sensação de que o personagem do game não faz idéia das consequências do seu próximo passo, já que nós mesmos, os jogadores, estamos na mesma escuridão. Além dessa sensação existe também a idéia de um mundo tomado pelo caos, onde as certezas antigas e inabaláveis agora não passam de sombras e fragmentos.

De um modo empolgante, ao iniciarmos qualquer jogo dessa série, nos tornamos como Artorias ao sucumbir ao Abismo. Algumas pessoas gostam desse estilo de narrativa, já que ele o obriga a se aprofundar em todos os detalhes do jogo para ter idéia do que realmente aconteceu. Outras detestam, consideram confuso e às vezes até preguiçoso. Os dois lados tem direitos iguais em emitir sua opinião e devem ser respeitados. O que é realmente difícil, mais difícil até que derrotar aquele lazarento do Nameless King, é ouvir a fatídica frase: “Dark Souls não tem história.” YOU DIED