Animação | Desenhos e a Aceitação do Erro e da Tristeza



Desenhos e a Aceitação do Erro e da Tristeza.

Os desenhos! Um dos primeiros contatos com quaisquer tipo de produção cultural de nossas vidas e, talvez, o mais importante.

Quem não se lembra dos desenhos da infância, dos episódios especiais, das risadas infantis e despreocupadas, da comodidade das cores e da sensação de que o mundo poderia se resumir àquilo? E quem nunca se emocionou e exaltou quando, em uma conversa com os amigos, alguém soltou o nome do desenho ou episódio que você tinha supostamente esquecido para sempre?

A questão é: os desenhos que assistimos jamais nos deixam, permanecem em nosso subconsciente, em nossas aspirações e na forma que enxergamos o mundo.

 

“Um momento pra se lembrar de um

Só um momento pra se encontrar

Um momento pra perguntar se é assim? Vai desabar?

 

Mas não é, mas não é, mas não é, mas não é, mas não é

Tudo bem, tudo bem, tudo bem, tudo bem, tudo bem

Não tem nada, não tem, não tem nada, tem nada a temer

Eu estou aqui, aqui

 

Um pensamento, pode me assustar

O que disse alguém, e veio a me magoar

Algo que fiz, não foi agradável

Coisas que eu disse, de um jeito instável”

– Steven Universo; Aí Vêm a Reflexão.

 

Essa letra fala por si, não é nela onde quero me aprofundar, mas na seguinte ideia, o que ocorre quando uma criança é exposta a isso?

Muitos defendem a ideia de que essas doses de realidade, de educação sexual, de amor, desapontamento e reflexão, podem afetar negativamente as pobres mentes infantis, entretanto, não seria de longe o oposto?

Em Steven Universo vemos, episódio após episódio, personagens errarem miseravelmente e arcarem com consequências terríveis que vão muito além de qualquer dano físico. Também vemos eles comemorarem a própria evolução, rirem juntos, aceitarem os outros do jeito que são.

O mesmo se repete em Hora de Aventura, principalmente na relação do protagonista e seu pai, um homem o qual ele idealizou boa parte da vida apenas para ser desapontado. Ainda assim, após encontros e desencontros, uns piores que os outros, ele o aceita. Não o ama, não… não está tudo bem entre os dois, ele não pode amá-lo, mas ele aceita isso, compreende a mente de seu pai, seu comportamento e o abraça enquanto individuo.

Uma criança, claramente, na maioria das vezes, não consegue enxergar tão longe, mas ela pode se deixar marcar para, mais tarde, compreender o que certas cenas queriam dizer.

Revisite essas memórias e veja o que lhe foi ensinado, o que alguns desenhos tentaram lhe educar. Se não conseguir tudo bem, as memórias se perdem, mas continuam a pesar em nossos seres. O que está aprendido, está aprendido, simples assim.

Naruto, Jovens Titãs, Hora de Aventura, Steven Universe e inúmeros outros desenhos, bem como outras mídias, como jogos, nos ensinaram algo que os adultos se recusaram por simplesmente não saber como explicar. A natureza dos sentimentos reais.

Vimos lágrimas, risadas, a mutabilidade da vida, o seu aflorar e murchar, tudo através dos traços de equipes comprometidas de desenhistas, roteiristas, músicos e dubladores. Isso exercita uma das melhores qualidades do ser humano: a compreensão.

É a capacidade de reconhecer sentimentos que nos ajuda a compreender os outros, a estender uma mão amiga, a abraçar alguém que chora. A mesma capacidade também nos ajuda a desenvolver auto-conhecimento.

A leva de animações dos anos 2000 para frente, desde Naruto até Gravity Falls, romperam a alienação chamada de “ingenuidade infantil” da forma que ela necessitava ser quebrada. Certo que as vezes foram cometidos deslizes, mas a infância de muitos foi marcada por cenas como a de Zabuza, após a morte de seu pupilo, chorar.

O homem orgulhoso, frio e insensível, além de competitivo, se rendeu ao seu lado humano e pediu ao maior de seus inimigos para que, antes de morrer, fosse deitado ao lado do garoto que o seguiu sem pensar duas vezes em todas suas incursões.

Eis a aceitação do erro. Não são heróis perfeitos, nem vilões de maldade pura que protagonizam a narrativa, mas figuras quebradas que transitam pelo roteiro em constante colisão, se transformando, amando, odiando e, acima de tudo, aceitando. Aprendendo com a realidade a sua volta, descobrindo como se superar apenas para encarar um desafio interno maior ainda.

A aceitação da tristeza é por parte dos escritores e produtores, estes que admitem que nem tudo pode ser flores e que as crianças não deveriam acreditar nisso, mas que tem tato suficiente para mostrar que nem tudo é sofrimento e nem mesmo o sofrimento é o fim.