Crítica | Netflix, Estrelas, Likes e Polarização



Não vou falar sobre algo novo, mas é possível que você nunca tenha notado essa mudança na Netflix, então vamos lá.

Há algum tempo a locadora vermelha alterou o formato de avaliação. Antes, você assistia o filme ou a série e indicava se você achou a obra muito ruim, ruim, boa, muito boa ou excelente, fazia isso dando 1 estrela para muito ruim e 5 estrelas para excelente. Você tinha 5 opções para sinalizar sua experiência com determinada obra.

Agora, você tem um “Like” e “unlike”, simples assim. Você pode dizer se gostou ou não gostou. Percebe?

Estamos mesmo vivendo tempos extremamente polarizados. É como se as coisas realmente fossem pretas e brancas, apenas. Sem nuances, sem tons de cinza, sem variações, sem dúvidas. Todos sempre temos que ter certezas sobre absolutamente tudo.

Por exemplo, há uma crítica minha escrita sobre “Altered Carbon” aqui no site do Dragão. A Crítica é na maior parte do tempo negativa, mas eu enxergo pontos muito positivos na série. No sistema antigo de avaliação eu provavelmente sinalizaria a série com 3 estrelas. Ou seja, é um Bom produto. Não é muito bom, não é excelente, mas também não é ruim. É boa. Foi isso que disse no texto, mas essa avaliação não é mais possível.

Como alguém que consome cultura pop o tempo todo, como alguém que tem um blog regular sobre cinema, séries, como alguém que escreve críticas e se esforça para passar no texto todas as nuances, elementos técnicos que funcionam ou não, problemas de roteiro ou pontos positivos, enfim, como alguém que gosta de pensar sobre as obras, ver essa avaliação de SIM OU NÃO, me irrita muito! 

A Netflix tem seus muitos motivos para ter trocado o sistema. Provavelmente esse novo sistema facilita a sugestão de novos produtos. Sinceramente achei a mudança muito arbitrária. Fiquei até mesmo surpreso quando percebi que o sistema havia sido alterado.

Hoje, olhando as notas que eu dei no antigo sistema, eu vejo como seria muito mais interessante as coisas agora. Um exemplo muito interessante acontece com o filme Fargo, dos irmãos Coen. Quando assisti pela primeira vez, há um bom tempo atrás, sinalizei o filme com 3 estrelas. Ou seja, achei o filme bom. Hoje, assistindo o filme outra vez, acho o filme incrível! Gosto muito mesmo.

Usando esse mesmo exemplo, como eu sinalizaria o filme utilizando esse novo sistema. Na primeira vez que assisti e achei o filme bom, eu colocaria um Joinha positivo, um LIKE. E assistindo pela segunda vez eu não mudaria minha sinalização inicial, porque não existe nada além do LIKE ou UNLIKE, não existe bom e muito bom, existe apenas o LIKE.

Não sei se me fiz claro nessa crítica, mas a ideia que quero transmitir é muito simples, na verdade:

O trabalho de uma obra cinematográfica é extremamente complexo. Do argumento ao roteiro, do roteiro a direção, a fotografia, trabalho de atores etc…. São muitos elementos que interagem conosco durante a experiência de assisti a determinada obra. Quando a Netflix altera o sistema de avaliação e substitui as cinco opções que você tinha, para apenas duas (Gosto ou Não gosto), ela está limitando, não só a sua avaliação, mas está limitando a obra!

Eu ODEIO esse novo sistema de avaliação, porque eu não consigo exprimir nem um pingo da minha opinião sobre a obra. É muito raro eu dar a sinalização negativa. Existem tantos elementos que compõe um filme ou uma série, que me parece fácil demais dizer GOSTO OU NÃO GOSTO.

Sinceramente, acho que a mudança é apenas mais um reflexo dessa polarização que já abraçou todas as esferas da vida.

Não gostaria de terminar o texto de forma negativa, mas não há outra opção. Em tempos tão extremos, a função da crítica, a função de um site sobre cultura pop é reduzida a ser apenas um GUIA DE CONSUMO.

As críticas com suas 800 palavras não significam muita coisa, quando o maior streaming nos obriga a dizer: GOSTO ou NÃO GOSTO.

O que nos resta, aparentemente, é continuar oferecendo MAIS e buscando MAIS, porque é assim que nos manteremos “livres” do cabresto que tentam colocar sobre nós, na cultura, na política, nos relacionamentos… Enfim, boa sorte!