Contos | O Anel de Claddagh



Na Irlanda, há uma lenda chamada O Anel de Claddagh. Em todos os sites, a lenda é explicada muito resumidamente, portanto ai vai um conto de minha autoria, inspirado na história original:

 

“Chamai-me Richard Joyce. Faz alguns anos, arrisco dizer oito – não importa-me quantos precisamente –, tendo pouca ou nenhuma liberdade e nada que particularmente interesse-me na Terra mais do que reencontrar minha amada, achei, então, que devia lapidar para ela um anel. É a tarefa que tenho desde o ataque pirata ao barco pesqueiro que eu tripulava. Estou sempre sentindo falta de minha amada; sempre alimentando a esperança de que ela está ainda à minha espera; sempre amando-a cada dia mais e mais. O sentimento apenas cresce e faz-me sorrir mesmo quando tudo está desabando ao meu redor. Vez ou outra sinto o coração apertar de saudades, e outras vezes o sinto expandir com todo o carinho que sinto por ela. Cada minuto amando-a me dá a certeza de que ela é a pessoa certa.

 

Para melhor fazer-te entender, contarei a minha história.

Venho de uma vila pesqueira chamada Claddagh, encontrada fora dos muros de Galway, na Irlanda. Lá ninguém desfruta de luxos ou de uma vida abastada, desde pequeno trabalhei como tripulante dos barcos pesqueiros. O fato mais relevante que posso ressaltar foi a primeira troca de olhares com uma certa mulher. Não lembro de ter escutado sua voz naquele dia, mas senti sua alma tocar-me através das janelas que são seus lindos olhos escuros. Estávamos no porto, ela se despedia de seu pai que partia, assim como eu, para mais uma navegação. Passei dias em alto-mar desejando estar no mesmo barco que ele, para ganhar sua admiração e poder, um dia, cortejar sua bela filha. Todas as noites sonhava com aqueles cabelos cacheados, pele branquíssima e riso simpático, sentia no balanço das ondas o ritmo de um abraço que nunca experimentei e iludia-me com o dia que a reencontraria.

 

Este dia finalmente aconteceu, mas não foi tão rápido quanto eu esperava. Passaram-se meses e duas outras navegações até que coincidiram-se os dias do meu embarque com o de seu pai novamente. Ela usava um vestido de pano leve e branco, mas meio amarelado pelo uso; seus cabelos estavam soltos e balançando com o vento. Respirei fundo e fui até eles. Apresentei-me sem jeito, envergonhado pela súbita decisão. Os dois foram muito educados e conversamos durante algum tempo, mas chegou a hora do embarque e ele se foi, deixando-nos a sós. Contou-me ela um pouco sobre sua vida e também sobre a preocupação que surge quando o idoso sai para trabalhar. Fiquei vidrado em seu rosto enquanto as palavras eram despejadas em mim no formato de histórias, rotina e causos.

 

Embarquei. Novamente, assim como nas últimas viagens, passei dias e noites pensando e idealizando aquela mulher com quem tanto me encantei. Assim que voltei, fui atrás de cada conhecido em comum com ela até descobrir onde a moça morava. Corri para sua casa – que era tão simples quanto a minha – exalando cheiro de mar e peixe, mas sem me importar. Apenas queria vê-la. Estava a colocar as roupas brancas no sol quando viu-me correndo, ficou parada e eu me encolhi ligeiramente assim que cheguei à frente dela. Ocorreu-me o pensamento de tê-la assustado, mas este logo sumiu quando recebi um abraço inesperado. Finalmente aquele abraço com que tanto sonhei, porém mil vezes melhor. A sensação de segurança e conforto foi imediata e eu queria nunca mais sair dali. Durou poucos segundos, mas foi o bastante para deixar-me bobo. Fui convidado para o café e aceitei. Comemos, tomamos e saímos para caminhar juntos pelos arredores. A felicidade de estar ao seu lado era maior que a exaustão dos dias de trabalho em alto-mar. Ao pôr do sol, deixei-a em sua casa e fui para minha. Nunca mais tive olhos para qualquer outra mulher.

Encontramo-nos muitas outras vezes e vi-me reciprocamente apaixonado. A primeira vez em que nossos lábios se encostaram foi depois de uma noite tempestuosa que passei pescando. Minha amada tagarelou sobre sua preocupação e que passara a noite em claro, esperando avistar um barco chegando ao cais, assim que avistou, correu para lá e encontrou-me são e salvo. Enxuguei uma lágrima que corria em seu rosto e disse que, naquela noite, ela foi meu anjo.

Um dia pedi sua mão em casamento. Disse que, mesmo com minhas viagens ao mar, onde quer que esteja, sempre a farei sorrir; onde quer que esteja, eu sempre estarei ao seu lado; onde quer que esteja, nunca a farei chorar e nunca direi adeus. Contei-lhe não precisar de um motivo, apenas a queria como minha e pedi para que, de alguma forma, ela ficasse ao meu lado até a morte. Prometi a ela o “para sempre”.

 

Faltando uma semana para nossa cerimônia, parti para outra pesca. Mas em uma infortuna noite nublada, quando a lua não podia ser vista, fui privado de voltar para casa e para minha noiva. O navio foi atacado por piratas e fomos sequestrados, feitos de escravos. Desde então trabalho na fabricação de joias. E depois de muitíssimo tempo aprimorando meu trabalho, decidi fabricar um anel para aquela que tanto amo.

 

Nas noites em claro que passo sofrendo com a saudade, comecei a pensar nos muitos significados de nossa relação e, então, criei um anel único, formado por duas mãos segurando um coração que veste uma coroa. As mãos simbolizam nossa amizade – porque antes de amantes, somos amigos –, o coração é o amor e a coroa, a lealdade. Dias e dias de um trabalho delicado se passaram e o anel finalmente ficou pronto.

 

Agora, com meios que não são de extrema importância, consegui fugir e estou voltando para Claddagh. Estou voltando para os braços de minha amada. Correrei para casa assim como no terceiro dia em que nos vimos. Apenas espero que ela esteja lá, espero vê-la e colocar este anel em seu dedo. Abraçarei-a para ter seu corpo colado no meu, beijarei-a ternamente e nunca mais a deixarei.

 

Pode ser que já esteja casada com outro ou, pior, morta. Pode ser que ainda me espere, assim como eu espero. A esperança diz que ela me espera todos os dias e ainda me ama – talvez ainda mais.

A viagem é longa, cansativa e perigosa. Passo por tempestades, climas amenos, suporto o sol escaldante, as noites frias e o ar salgado. As provisões são poucas, o suficiente para sobreviver, e o barco é pequeno. Somos em dezesseis. Todos foram capturados no ataque ao navio anos atrás. Alguns não têm para quem voltar, outros têm esposas e filhos, pais e mães. Eu a tenho e o desejo alimenta-me todos os dias.

 

Passam-se semanas e finalmente chego em Claddagh novamente. A vila mudou pouco, reconheço alguns rostos – agora, mais envelhecidos. Corro para a casa de minha noiva e vejo a porta aberta. Entro sem pestanejar, procuro-a em todos os poucos cômodos da casa. O desespero toma conta do meu ser e grito seu nome. Escuto um barulho ao longe, na parte de fora da casa. Encontro-a, e ela me encontra. Não nos tocamos no primeiro momento, apenas nos olhamos e assim eu soube que ela ainda me esperava. Abraço-a, beijo-a e coloco o anel na sua mão esquerda, de modo que o coração fique virado para dentro. Finalmente o símbolo de meu amor, feito em dias de dificuldades e esperança, está no lugar certo.