Cinema | O que aconteceu com o cineasta Dario Argento?



Um assassino disfarçado que retalha mulheres, crime macabros, uma intensa trama de investigação e (muitos) seios a mostra. Parece um argumento genérico de clássicos como Halloween (1978) ou Sexta-Feira 13 (1980), mas esse estilo já assustava o velho continente há décadas!

O Giallo é um gênero cinematográfico de suspense e horror, surgido na Itália nos anos 1960, por sua vez inspirado nos livros pulp que se tornaram febre a partir de 1929, caracterizados por suas capas amarelas – o nome é a tradução de “amarelo” em italiano. E um dos seus cineastas mais prolíficos é o objeto desse dossiê que busca entender o seu ápice e decadência.

Dario Argento é filho de um produtor de cinema italiano com uma fotógrafa brasileira. Iniciou na carreira ainda no colegial ao escrever como crítico para revistas especializadas, seguindo como roteirista e colaborador em produções de destaque – uma delas, a icônica Era Uma Vez no Oeste (1968). O impacto do filme de Sergio Leone foi o passaporte de Argento para debutar na direção com O Pássaro das Plumas de Cristal (1968), expoente do giallo que, ao lado de Seis Mulheres para um Assassino (1964) de Mario Bava, popularizou o gênero ao mundo.

Argento lançou mais dois gialli em 1971, formando a chamada “Trilogia dos Animais” junto ao primeiro filme: O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas sobre Veludo Cinza. Suas tramas envolviam psicóticos sádicos que reduziam jovens mulheres a pedaços de carne, disfarçado com capa e luvas pretas, chapéu de feltro e uma máscara assombrosa. Os assassinatos eram de um horror gráfico que despertavam os mais diversos sentimentos na audiência, abusando de técnicas de enquadramento revolucionárias e cores quentes, bem como a trilha sonora sinestésica da banda de rock progressivo Goblin, cuja parceira o acompanhou por anos. Críticas mais ácidas à sua direção se referiam aos diálogos triviais e alguns Deus Ex Machina na estrutura do argumento, como as explicações psicanalíticas para os assassinatos – poupadas sempre na forma como a história era contada.

Buscando outras fontes de inspiração, Argento ainda trabalhou com filmes para televisão e uma comédia. Mas o gênio só fecharia mesmo a década com Prelúdio para Matar (1975) e Suspiria (1977), consideradas suas obras-primas, significativas para o cinema de suspense e horror, elogiadas por seu visual e técnica sofisticadas. O primeiro é um giallo em sua essência, impactando diretores como John Carpenter e Wes Craven no gênero slasher – que bebeu MUITO da fonte dos italianos. Já o último é uma trama sobrenatural, classificado como um dos trabalhos de terror mais importantes da indústria nas listas do Rotten Tomatoes e da IGN.

A crítica elevou a importância de Dario Argento ao movimento criativo que se espalhou pela Itália. Por isso, o giallo foi se esvaindo em películas menores que buscavam repetir o sucesso dos seus filmes anteriores, bem como externando vícios ruins do segmento: movimentos de Direitos Humanos não pouparam críticas quanto a exposição cruel e misógina nas quais as personagens femininas eram submetidas, e frequentemente o nome de Argento era citado no metiê como um diretor machista. O próprio já queimou sua língua em declarações controversas.

Então, entramos nos 1980, e com ele o cinema de Dario Argento sofreu uma virada desastrosa. Com o boom causado por Suspiria, a expectativa em torno do cineasta era imensa. Baseado no conceito de três bruxas malignas como vilãs atuando em três pontos diferentes do mundo, ele lançou A Mansão do Inferno (1980) como segunda parte da “Trilogia das Mães”… e o resultado não foi o esperado. Com um orçamento astronômico e total liberdade criativa, a continuação foi uma decepção, por não acompanhar o furor de Suspiria. Atuações fracas, confusões narrativas e descompromisso na direção levaram sua filmografia a um declínio crítico.

Em 1982, lançou Tenebrae, um exercício de metalinguagem inteligente sobre as acusações de misoginia e a influência das suas obras violentas no cotidiano. Foi seguido por Phenomena (1985), outra proposta de thriller sobrenatural, fechando a década com Terror na Ópera (1987), um giallo moderno que recebeu análises mistas por seu conteúdo e inverossimilhança.

O que se percebe com o avanço da modernidade é que Dario Argento passou por um processo reverso aos dos diretores clássicos – enquanto os outros permaneceram engessados aos seus estilos, e sofrendo por não se adaptarem ao contemporâneo, um dos pais do giallo ousou modernizar sua direção, o que transformou seu gênero barroco em algo trivial e comum, muito próximo dos enlatados americanos que, ironicamente, sugaram as influências do horror italiano. Filmes como Trauma (1993), Síndrome Mortal (1996), Sleepless (2001), Jogador Misterioso (2004) e Giallo – Reféns do Medo (2009) dão provas do desgaste que se abateu sobre o diretor. Nem mesmo a tentativa de finalizar a “Trilogia das Mães” com O Retorno da Maldição – A Mãe das Lágrimas (2007) ou de revitalizar clássicos como O Fantasma da Ópera (1998) e Drácula 3D (2012) saciaram o seu jejum criativo.

Em 2014, o próprio cineasta anunciou que está produzindo Sandman, um filme com todos os elementos da sua era de ouro: um assassino misterioso, um trauma psiquiátrico e trilha incisiva de Claudio Simonetti – que foi parceiro de Argento ainda na época da banda Goblin. Com direito a artes promocionais e um site, ao que tudo indica, a produção está rodando ao longo de 2018. E nesse ano contamos também com o remake de Suspiria, pelas mãos de Luca Guadagnino (de Me Chame pelo seu Nome), que se propõe a ser uma releitura da obra original.

Com obra autoral e adaptação, esse pode ser o ano de Dario Argento. Teremos com Sandman o retorno da sua verve inteligente e instigante que marcou a Itália? Para o bem das artes cinematográficas, esperamos que sim.