Cinema | A importância do silêncio na construção da tensão



Para a maior parte dos espectadores o mais importante, no cinema, é o que estão vendo. A trilha sonora quase sempre passa desapercebida. Os efeitos sonoros só são notados em explosões e tiros. O que é uma pena, evidentemente. O Som promoveu uma grande revolução na forma de contar histórias. Do cinema mudo aos primeiros filmes com som, até chegarmos aqui o cinema passou por várias mutações e evoluções, tanto tecnológicas quanto narrativas, entendendo o som e o papel que ele poderia executar em favor de uma boa história.

Algumas pessoas não assistem os filmes no idioma original, porque simplesmente não conseguem acompanhar o filme e a legenda ao mesmo tempo. Percebe? Fomos educados a receber as coisas de forma tão superficial, que só notamos o que é muito óbvio na cena, deixando passar todos os outros elementos que compõe a experiência de receber um filme.

Por exemplo, existe todo um trabalho de design de produção no filme. Esse trabalho sussurra para nós o tempo todo informações importantes sobre o filme. É importante saber que nada está em tela por acaso. Sempre há muito mais do que apenas dois personagens conversando, entende? Quando Scorsese utiliza a iluminação para nos dar uma dica sobre um personagem ou sobre um momento que está por vir. O vermelho em Bons Companheiros, o Verde em Taxi Driver….

O cinema é uma arte composta por vários elementos, vários elementos unidos para aumentar o poder narrativo de uma história. Aqui, é importante ressaltar que mesmo não entendendo, ou captando, mesmo assim esses elementos conseguem produzir o efeito necessário, o problema é que nós simplesmente recebemos, mas não entendemos esse efeito. E de novo, é uma pena, porque quando entendemos porque estamos emocionados, ficamos duplamente emocionados e recebemos uma dose complementar de prazer.

Eu falei sobre essas coisas, para finalmente chegar na “Importância do Silêncio na construção da Tensão” e para falar sobre isso vou utilizar o filme “Um Lugar Silencioso” como exemplo.

Quando o som foi inserido no cinema, provocou uma grande revolução na forma de se contar histórias, tendo em vista que agora, os cineastas possuíam uma nova ferramenta narrativa. É importante entender o som como uma FERRAMENTA NARRATIVA, é mais um elemento que SE utilizado corretamente pode ajudar uma história a ser contada.

Hoje nós estamos completamente habituados com o som no cinema. É algo natural, tão natural que nós acabamos nem reparando em como o som funciona em um filme. Nós detemos nossa atenção nos diálogos e no movimento dos atores, e raramente prestamos atenção em um efeito sonoro ou na própria trilha sonora. Isso acaba acontecendo apenas quando um som destoa muito do padrão, ou quando a trilha apresenta alguma música que nós conhecemos.

O Filme “Um Lugar Silencioso” apresenta uma proposta muito interessante. Estamos em algum momento do futuro. O planeta Terra foi invadido por criaturas bizarras. Essas criaturas são eximias caçadoras. Possuem um aparelho auditivo muito bom, mas não enxergam, então sua caça é guiada pelo SOM.

No filme nós acompanhamos uma família composta por Marido, Mulher, dois garotos e uma garota (Que é deficiente auditiva). Numa primeira cena muito bem construída, nós entendemos exatamente a dinâmica dessa família.

Eles tentam ficar juntos o máximo possível, eles desenvolveram algumas formas para fazer o mínimo de barulho possível, como andar descalços, trilhar caminhos de areia – para abafar o som dos passos – falar na linguagem dos sinais. Enfim, nós compreendemos que eles estão numa grande luta pela sobrevivência e que nessa luta o silêncio é principal defesa.

No fim dessa primeira cena nós temos um momento muito impactante. A família está voltando para casa depois de ir até um supermercado em busca de remédios, e de repente um barulho quebra com o padrão silencioso. O filho mais novo do casal, encontrou uma nave espacial de brinquedo no mercado em que estavam. O garotinho pegou as pilhas, encaixou e ligou sua nave espacial, que começou a brilhar e fazer muito barulho. O pai correu, mas não conseguiu chegar no garoto antes da criatura.

O que nós temos nessa primeira cena é uma construção de tensão muito bem arquitetada. Nós estamos nos acostumando com o silêncio, compreendemos o perigo do barulho, nos identificamos com a família e no fim desse momento nós somos surpreendidos com o barulho, e imediatamente entendemos que barulho é morte, e no caso a morte de um garotinho.

Essa cena é importante porque ela estabelece uma linha de tensão que se mantém durante todo o filme. A partir do momento em que o filho mais novo do casal morre, você percebe que realmente existem consequências sérias para o barulho. É também a primeira vez que você vê o monstro, então é uma cena que funciona muito bem para estabelecer o tom do filme, e funciona perfeitamente bem.

O filme brinca o tempo todo com nossa audição. Parece um paradoxo, já que não existem falas no filme, mas não é. O design de som do filme trabalha muito bem o som ambiente, o som do vento balançando as árvores, da madeira rangendo baixinho, da água batendo contra as pedras e faz tudo isso, alternando e muitas vezes mesclando esses sons com a trilha.

Nos momentos em que a garota está em cena, todos os sons cessam, porque é o momento em que nós também não conseguimos ouvir nada. Nesse momento, nós estamos no mesmo estado em que a garota está. Nós também não conseguimos ouvir. Essa é uma escolha tão bela, tão rica e humana, porque nesses momentos nós experimentamos um pouco do seu mundo. É uma experiência poderosíssima.

O monstro, por sua vez, emite um som espectral e sempre que o ouvimos, entendemos imediatamente que o perigo está muito próximo, e já que estamos falando de som, é importante ressaltar como esse som espectral realmente amedronta. No cinema, esse som surge hora por trás, hora pelos lados, e é um que vai e volta, como um bumerangue, que passa por você, dá a volta e faz esse movimento completo.

E talvez, o maior mérito de “Um Lugar Silencioso” no tocante a utilização do silêncio, é que a utilização é muito criativa. O filme consegue fugir daquela solução fácil do susto, da coisa que surge na tela. O filme, eu ouso dizer, se utiliza muito bem do estilo de Hitchcock de fazer suspense.

O famoso exemplo da bomba de Hitchcock. Existe uma bomba embaixo da mesa. Dois personagens estão conversando. Você sabe que a bomba está ali, mas os personagens não. Ele constrói a tensão e essa tensão dura por toda a cena.

Em “Um Lugar Silencioso”, o bebê chora, o monstro vem e então estão em um cômodo, a mãe, o bebê e o monstro. O monstro buscando um som. A mãe tentando controlar sua respiração e manter seu bebê calado. A cena dura minutos e você, está encolhido na poltrona. Outra vez, uma construção de tensão muito bem executada.

Enfim, para nossa geração talvez seja impossível imaginar um mundo como esse. Estamos sempre cercados de muito barulho, por todos os lados. O filme faz uma crítica muito pontual há tudo isso. É para nos fazer pensar.

E para encerrar com o filme, eis a importância do silêncio. O cinema não precisa usar o jumpscare como muleta para criar tensão. O silêncio em “O Lugar Silencioso”, ajuda a criar um dos climas mais tensos construídos para o Cinema nos últimos anos. É a Tensão em seu sentido mais elevado, é inteligente e honesto.

 

Julio ‘Transgressor’

transgressor.blogspot.com.br