Cinema | Arábia: Quando simples histórias são protagonistas



Cristiano, Aristides de Souza, é um homem simples do interior de Minas Gerais, que acaba envolvido em alguns problemas com a polícia e vai parar atrás das grades. Após sua liberação, o mineiro, como antes, encontra-se perdido no futuro de sua vida. A partir disso, começa a saga de Cristiano lutando por uma vida mais decente, ainda que não saiba definir bem o que ele quer.

O filme Arábia, do diretor Affonso Uchoa, é apresentado em algumas críticas como uma “Ode ao trabalhador”, o que reduz muito a grandeza da obra. Mesmo que a temática principal seja denunciar condições precárias de trabalho, há outros assuntos muito bem apresentados no filme que merecem atenção.

Primeiro, a construção do protagonista nos faz criar empatia pelo personagem mesmo em situações complicadas, como no caso dos problemas com a polícia. Cristiano parece ser fruto de uma família desestruturada, jogado no mundo sem manual. Não há vilões, nem heróis, há pessoas, fazendo o telespectador criar uma identificação com os personagens, certas vezes nos fazendo pensar que Cristiano poderia ser um primo, um vizinho e que há inúmeros desses pelo Brasil.

Mas o filme não se resume a Cristiano. No começo, André, um garoto de Ouro Preto, para ajudar sua tia, a enfermeira que presta socorros a Cristiano quando ele se acidenta em uma fábrica onde trabalha, vai à casa do protagonista para buscar roupas para o acidentado. Mas lá acaba encontrando um texto escrito pelo próprio Cristiano que revela os percalços de sua vida.

Colhedor de mexerica, pedreiro, operário, somos convidados a acompanhar uma trajetória  de sofrimento e invisibilidade do personagem, até que ele se encontra com Ana, Renata Cabral, formando um casal curioso pelas suas diferenças. Pela primeira vez no filme, a ideia de sofrimento e o clima angustiante ficam de lado para um breve momento de alegria. Mas a vida de Cristiano parece o condenar a inconstância das coisas, muda muito de trabalho, muda de amigos e seu relacionamento com Ana não vinga.

A história é incrível para sair do cinema se questionando, mas o filme ganha pontos também com a fotografia, é tudo muito pensado e bastante intimista. Além do mais, o filme foi todo passado em Minas Gerais, com atores da região, o que constrói uma narrativa sintonizada com seus atores.