Uma espada cravada numa pedra, com várias e várias árvores à sua volta e raios de luz entrando de modo onírico pelas frestas entre os galhos e folhas. Essa imagem específica invoca uma ideia extremamente poderosa que habita nosso imaginário coletivo. Quando pensamos na cena descrita no início desse texto, automaticamente nos vem à mente a lenda de Artur, e atualmente quando pensamos em Artur, pensamos em Bernard Cornwell.

Autor da trilogia As Crônicas de Artur, composta por O Inimigo de Deus, O Rei do Inverno e Excalibur, essa versão da lenda do mítico Rei britânico, que na realidade não quer as responsabilidades da corte e nunca chega realmente a assumir o trono, acaba por nos colocar num mundo com uma visão mais crua, mais realista dessa mitologia. Um apanhado onde o autor mistura de modo talentoso a ficção histórica e a as lendas que todos nós, em maior ou menor grau, conhecemos. Sem abrir mão de nenhum personagem clássico, Cornwell nos prende numa teia de batalhas muito bem escritas, nobres guerreiros e outros nem tanto, magos que na realidade se aproveitam do excesso de superstição da população em geral, reis corruptos e uma infinidade de outras situações e personagens que simplesmente vão impedir o leitor de largar qualquer um dos três títulos até chegar aos seus respectivos e emocionantes finais.

A história é contada por Derfel Cadarn, um velho monge que durante sua juventude lutou ao lado de Artur e agora escreve as histórias desse período para a sua Rainha, que tem uma imagem totalmente ingênua e romantizada de tudo o que ocorreu em épocas passadas. Destaque para o Merlin dessa versão, um dos personagens mais interessantes criados para essa obra. Irreverente e imoral, o mago é uma das melhores coisas do livro! O personagem de Artur também merece um óbvio destaque. Não “apenas” porque a lenda se refere a ele e sim por sua personalidade. Trata-se de um homem que jamais tentará adequar sua moral a uma situação difícil. Inflexível em suas decisões, Artur pensa sempre no bem do reino e em cumprir as promessas que fez, não importando as consequências. É um personagem tão admirável, tão nobre, correto e perfeito em suas ações, que às vezes chega a assumir um ar irreal, improvável. E então, pensando em Artur e em seu comportamento, finalmente percebe-se porque um personagem século V e que é bem provável que nunca tenha existido de verdade, tenha tanto a nos ensinar, homens do século XXI, sobre ética e moral.

Escrever sobre um universo com tantos personagens conhecidos e que fazem parte de modo tão vivo da imaginação popular é uma tarefa desafiadora que Cornwell cumpre com graça e maestria. Leitura fácil e acessível, emocionante e divertida, as Crônicas de Artur se mostram um ótima pedida para todo aquele que procura um (ótimo) novo ponto de vista sobre uma lenda.