Netflix | "Neo Yokio" - Animação do vocalista de Vampire Weekend



Neo Yokio (2017) é uma animação com a cancha Netflix e criada por Ezra Koenig – vocalista da banda Vampire Weekend –, que também atua na trilha sonora e escrevendo três dos seis episódios que compõem a sua primeira temporada. Possivelmente ter uma forma tão autoral, Neo Yokio sofre de um mal que acomete uma parcela dos trabalhos com tanta liberdade de criação: a arrogância argumentativa.

A trama tem de tudo. Tudo mesmo. Uma metrópole moderna – “Neo Yokio” lembra a aglutinação entre New York e Tokyo, não acham? –, tecnologia cyberpunk, ameaças sobrenaturais, exorcistas aristocráticos, luxo e riqueza, partidas de tênis, dramas existenciais, mechas, música erudita, humor nonsense, referências aos círculos da moda, críticas ao consumismo, à meritocracia… E, ao fim da temporada, a sensação é de que não vimos nada.

Em resumo, temos os descendentes de uma linhagem de exorcistas que, ao lado de outros especialistas em magia, mantiveram a cidade de Neo Yokio protegida de fantasmas e outros fenômenos irreais. Hoje, um dos jovens exorcistas é o charmoso Kaz Kaan (dublado por Jaden Smith), um playboy entediado que é manipulado por sua tia, Agatha (Susan Sarandor), a manter as tradições – leia-se fornecer seus préstimos à sociedade rica e permanecer nas altas rodas a qualquer custo. Ele tem o suporte do servil ciborgue Charles (Jude Law) e dos amigos Lexy e Gottlieb (respectivamente, os comediantes The Kid Mero e Desus). Seu contraponto é a it girl Helena St. Tessero (Tavi Gevinson), que após um exorcismo mal sucedido, começa a perceber o mundo fútil no qual Neo Yokio é calcado.

A sinopse acima é muito instigante, bem amarrada e denota excelentes ganchos, como o fato de juntar uma trama sobrenatural com os elementos futuristas, uma sociedade meritocrática baseada em magia e a discussão sobre superficialidades. Mas não é o que se vê em tela. A ideia de Ezra Koenig está longe de sua execução. Neo Yokio quer discutir TUDO de uma vez só, o que compromete o desenvolvimento dos personagens. Kaz Kaan é um menino rico que discute existencialismos sem interesse algum, não ocorre sequer um aprofundamento ao que ele pensa, ou mesmo traços de empatia por sua história. O plot de Helena não se desenvolve, ocorrem inúmeros buracos (os chamados plot holes) até alcançar o clímax, que se também se esvai.

O clima sobrenatural acontece somente nos episódios 1 e 3, enquanto os outros discutem a escalada social no qual a cidade se mantém – o que afugentou o público atraído pelo gancho dos exorcistas. O humor também é problemático no roteiro – há momentos vilanescos demais que não se encaixam onde estão, soando forçado esta quebra de ritmo. O elenco estrelar parece subaproveitado, embora ainda se notem os esforços dos atores em imprimir características incisivas de seus personagens em um texto mediano. Em resumo, o público assistiu uma história diferente daquela prometida nos teasers.

Neo Yokio é um bom exemplo de arrogância argumentativa. A pressa em querer ser tudo acaba reduzindo um trabalho promissor em (quase) nada, bem como a falta de ritmo em pontos sensíveis da narrativa. Para romper com as regras é preciso aprender com elas primeiro, algo visível no último arco da temporada, que termina tão solto quanto se iniciou, ignorando a premissa de trabalhar com as complicações do antagonista logo no arco inicial. O veredicto é que Ezra Koenig – aclamado pelos álbuns da Vampire Weekend – se envolveu de forma emocional demais em seu projeto pessoal, abraçando tantas funções quanto podia e rompendo estruturas básicas na forma de contar uma história.