Quando alguém fala em “jogo de terror”, os suspeitos de sempre devem vir à sua mente: Resident Evil, Silent Hill, Fatal Frame, etc. Tais games são tidos como referência do seu gênero por conta de seu grande sucesso e inovação. Mas será que foram eles a de fato inovarem? Muitos não sabem, mas houve um título anterior que definiu o modo como se vê o survivor horror na atualidade.

Concebido a partir do sonho visionário de um desenvolvedor francês, chamado Frédérick Raynal, Alone in the Dark foi o primeiro game 3D de survivor horror, lançado em 1992 para PC, desenvolvido e distribuído pela Infogrames. Mais tarde, o jogo teve versões para 3DO, Master System e para IOS.

A trama do game se passa em 1924, no estado da Louisiana, quando Emily Hartwood contrata um detetive particular, Edward Carnby, para investigar a morte misteriosa de seu tio, um artista rico, chamado Jeremy Hartwood. Embora Jeremy tenha, aparentemente, cometido suicídio, Emily tem motivos para suspeitar das circunstâncias de sua morte, então o detetive parte para a mansão do falecido e, ao adentrar o lugar, percebe que está trancado ali com toda sorte de monstros, fantasmas e armadilhas mortais. Mesmo sendo um fato conflitante com a história do jogo (e um dos pontos que deixou Raynal insatisfeito com o produto final), o jogador pode escolher se quer jogar com Edward ou Emily (esta última tendo sido incluída no jogo pela empresa numa tentativa de atrair o público feminino). A escolha dos personagens, contudo, não causava nenhuma mudança na história.

O enredo foi desenvolvido com base na mitologia criada pelo célebre autor de livros de terror H. P. Lovecraft, como é dito na capa do jogo original. No entanto, a atmosfera sombria e opressora da mansão assombrada teve como fonte de inspiração um conto chamado A Queda da Casa de Usher, de outro pioneiro da literatura de terror: Edgar Allan Poe.

O game inteiro se passa dentro da mansão de Hartwood, enquanto o protagonista escolhido resolve quebra-cabeças e tenta sobreviver às ameaças com poucas armas e espaço limitado de inventário, o que o obriga, muitas vezes, a fugir. Lembrou de alguém? Sim, os primeiros jogos da franquia Resident Evil mantiveram esse legado intocado.

Por conta da limitação tecnológica da época, Alone in the Dark contava com um cenário em 2D, sendo apenas o personagem e os itens do game em 3D. Mais uma vez, este foi um estilo que serviu de base para o desenvolvimento dos cenários de Resident Evil, assim como o do primeiro Silent Hill. A mansão da história foi concebida com a ajuda de fotografias e esboços de casas antigas, feitos pela pequena equipe de desenvolvimento.

Sendo o primeiro jogo de terror 3D, Alone definiu alguns padrões que foram, pouco tempo depois, reapresentados por seus “herdeiros”, como o posicionamento fixo de câmera, os documentos que podem ser lidos pelo jogador e que ajudam no entendimento e na imersão na história, os puzzles, e o sistema de levar e trazer itens pelo cenário para resolver enigmas. Os puzzles, na época, eram uma novidade, o que estendia o tempo de gameplay.

Como todo projeto audacioso ou muito à frente de seu tempo, Alone tinha problemas, como o lag, que ocasionava um atraso na resposta dos controles em momentos críticos, como as lutas.

No entanto, grandes riscos podem trazer grandes recompensas. O game foi aclamado pela crítica, e passou a marca de um milhão de cópias vendidas após seu lançamento; números incríveis para um jogo estreante. Embora, hoje em dia, sua trama possa parecer um tanto sem graça e sem impacto, Alone recebeu os prêmios do European Computer Trade Show de Melhores Gráficos e Jogo Mais Original, em 1993. A revista Empire, em 2009, incluiu o jogo em sua lista dos 100 maiores videogames de todos os tempos.

O game também possui uma adaptação para o cinema, trazendo Edward Carnby, interpretado pelo ator Christian Slater, para os dias atuais. Porém, ao contrário do game de 1992, essa não foi uma obra tida como de grande qualidade.

Muitos concordam que o primeiro Alone in the Dark foi sucedido em sua franquia por jogos de qualidade duvidosa (o mais recente, Illumination, não “iluminou” a situação nem um pouco), mas é unânime que sua influência continua reverberando pelo gênero do survivor horror, e ainda vai reverberar por muito tempo, seja nas casas assombradas, nos fantasmas ou monstros. Mesmo que hoje você possa rir dos ghouls coloridos, é a eles que os fãs de games de terror devem agradecer.